sábado, 25 de fevereiro de 2017

Como o detrito tornou-se dinheiro e, depois, o deus do capitalismo e de muitos cristãos... Por Mauro Lopes




"O filósofo italiano Giorgio Agamben, um dos relevantes protagonistas do pensamento crítico na virada do século XX para o XXI disse numa entrevista em 2012 que “Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro” (aqui). A afirmação de Agamben inspirou-se em outro filósofo, este um protagonista da primeira metade do século XX, um pensador fora da curva, Walter Benjamin. Em seu curto e denso “O Capitalismo como Religião”, de 1921 (aqui), Benjamin escreveu que o capitalismo é em si mesmo a religião mais implacável que já existiu, e promove um culto ininterrupto ao Dinheiro, “sem trégua nem piedade”, uma religião que não visa a reforma da pessoa, “mas seu o seu esfacelamento”.





O culto ao Deus-dinheiro oficializado nas cédulas no Brasil e EUA

Segue o artigo de Mauro Lopes publicado em seu blog Caminho pra Casa
O filósofo italiano Giorgio Agamben, um dos relevantes protagonistas do pensamento crítico na virada do século XX para o XXI disse numa entrevista em 2012 que “Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro” (aqui). A afirmação de Agamben inspirou-se em outro filósofo, este um protagonista da primeira metade do século XX, um pensador fora da curva, Walter Benjamin. Em seu curto e denso “O Capitalismo como Religião”, de 1921 (aqui), Benjamin escreveu que o capitalismo é em si mesmo a religião mais implacável que já existiu, e promove um culto ininterrupto ao Dinheiro, “sem trégua nem piedade”, uma religião que não visa a reforma da pessoa, “mas seu o seu esfacelamento”.[1]
O filósofo alemão sugeriu uma comparação entre as imagens dos santos das religiões e as cédulas de dinheiro de diversos países –ele não imaginava, à época, que este Deus-dinheiro estaria diretamente louvado nas cédulas nos EUA (In God we Trust, em Deus Confiamos) e, desde 1980, no Brasil, onde lê-se em todas as notas a frase de adoração à moeda corrente: Deus seja louvado.
Ambos inspiraram-se num dito de Jesus, que está no centro da liturgia católica do 8º Domingo do Tempo Comum (26), às portas do período quaresmal que antecede a Semana Santa e a Páscoa: “Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro.” O texto proclamado é do Evangelho de Mateus (Mt 6,24-34). A oposição entre Deus e o dinheiro é um tema central ao longo da história e, para Jesus, a relação de cada qual com o dinheiro é definidora de sua relação com as outras pessoas e a vida.
Como essa questão aparece na vida das pessoas? A psicanálise procurou investigar a relação entre o ser humano e o dinheiro e chegou a conclusões que podem soar surpreendentes e inacreditáveis num primeiro momento. Como apontou o sacerdote jesuíta e teólogo espanhol Carlos Domingues Morano, dinheiro é um assunto crucial, apesar de muitas vezes escamoteado -como o sexo. Na verdade, o tema nunca é “só dinheiro”. As relações entre os homens/mulheres com o dinheiro comportam dimensões nem sempre lógicas, que extrapolam o discurso racional mais ou menos organizado –é sempre “algo mais” que dinheiro.[2] Na relação das pessoas com o dinheiro, revelou-nos a psicanálise, “está também implicada uma ‘questão de amor’; dito em termos mais freudianos, uma questão de ordem libidinal, inconsciente e com raízes na infância. Isso nos permite compreender, entre outras coisas, porque, assim como ocorre com a sexualidade, o dinheiro provoca tantas reações de dissimulação, falso pudor e hipocrisia.”[3]
Há uma questão oculta que Freud trouxe à tona –e causou enorme mal-estar: a intimidade entre nossa relação o dinheiro e a fase da libido anal, relacionando-o com os excrementos.
O valor nodal do dinheiro para os adultos é, descobriu Freud, análogo ao altíssimo valor que os excrementos possuem para as crianças. Outro psicanalista, Sandor Ferenczi, do grupo de Freud, demonstrou o caminho passo a passo pelo qual a criança efetua a sublimação do conteúdo anal até chegar, finalmente, à transmutação simbólica em dinheiro. “A matéria fecal vai passando por uma série de substituições, nas quais vai progressivamente distorcendo a  primitiva satisfação auto erótica relacionada com a defecação: o barro, a areia, a pedra, o jogo com bolinhas de gude e botões todos objetos que proporcionam tanta satisfação à criança que facilitam a substituição do fétido, duro, mole pelo inodoro, seco duro.”[4] O dinheiro ingressa nessa cadeia de sublimações por um caminho complexo até desvincular-se de toda a aparência com sua “fonte original” e permitir o surgimento da máxima de que o dinheiro não fede (pecunia non olet).
A relação entre as fezes e o dinheiro pode parecer um absurdo num primeiro momento. Mas, se observamos com mente aberta, veremos que são abundantes e recorrentes as imagens e símbolos que desnudaram ao longo da história relação que os homens estabelecem entre as fezes e o ouro ou o dinheiro. Uma delas é a figura do “cagador de ducados” que está representada nos portais de bancos alemães. São inúmeras as expressões populares que  consagram esta associação sem que nos demos conta disso. Quando uma pessoa tem muito dinheiro dizemos que está “podre de rica”; se o dinheiro tem origem suspeita, falamos em “dinheiro sujo” e, ao contrário, se a pessoa está sem dinheiro, dizemos que está “limpa”; ou que está “apertada”.

O “cagador de ducados”, figura frequente nos portais dos bancos alemães
Esta relação foi capturada mais de mil anos antes de Freud numa intuição genial do bispo Basílio de Cesareia, em meados do século IV. São Basílio decretou: o dinheiro é o cocô do diabo. A expressão foi deixada de lado pelos cristãos séculos a fio até que São Francisco, no século XII, mencionou Basílio; agora, ela foi novamente posta á luz pelo Papa Francisco em fevereiro de 2015, apesar de ele preferir a palavra “esterco”, talvez menos crua. Clique e veja o vídeo em que o Papa menciona a expressão de Basílio (Francisco trata do assunto entre 1min50 e 2min30).
Como se dá esta articulação dinheiro-fezes? A psicanálise explorou as relações entre as dinâmicas de possessão, características da fase anal, e de propriedade, fundante da civilização ocidental e especialmente do capitalismo.
Quando uma criança perde suas fezes sente a dor de ter deixado escapar algo que lhe era tão essencial que estava dentro  de si, era parte de seu corpo, mas que não mais consegue por de volta; isto é a possessão. A propriedade refere-se a objetos externos, mas que deveriam me pertencer, “coisas que de fato estão fora, mas simbolicamente estão dentro”. São objetos revestidos de “qualidade do eu”. Para muitas pessoas, talvez a imensa maioria no capitalismo, o dinheiro reveste-se desta qualidade do eu. Isso origina processos intensos de defesa e projeção. Perder  dinheiro para essas pessoas é muito mais que perda de algo externo, exterior, “mas sim de algo que foi previamente in-corporado”, ou seja, algo que se tornou parte de mim. A posse e controle do dinheiro têm o mesmo papel que o controle da atividade defecatória para a  criança diante do mundo exterior. Uma “relação regressiva com o dinheiro ou com a propriedade de objetos” fica impregnada pela dimensão possessiva (retentiva) da fase anal.[5]
O resultado é avassalador: o amor ao dinheiro, quando extravasa suas funções de adaptação à realidade, acaba expressando uma dimensão infantil da afetividade, o que implica uma dominância do narcisismo, um desenvolvimento truncado da afetividade (da relação com o outro, da capacidade de amar e/ou odiar) e do autorrespeito e respeito pelo outro.[6] Esta infantilização narcísica dos ricos ou, dos “novos ricos”, numa expressão recorrentes de Basílio, é facilmente verificável na convivência com eles e espalha-se em ondas pela indústria do entretenimento, especialmente o cinema feito para o grande público.
Ter e reter dinheiro são tentativas continuadas de encobrir as carências internas e conquistar segurança. Lembro-me de uma conversa com um consultor de  investimentos sobre um casal, cliente do banco em que ele trabalhava. Eles haviam feito uma série de contas em planilhas (como se a vida pudesse ser contida em planilhas Excel) e concluído que quando tivessem R$ 20 milhões em aplicações financeiras (excluídos bens como casa e carros) poderiam finalmente “desestressar” e olhar com tranquilidade para a vida. Esta posição remetia-os a frequentes crises de insegurança e angústia extrema, pois como escreveu Erich Fromm, “se sou o que tenho e o que tenho se perde, então quem sou?”[7]
Ou, expressando Fromm de maneira complementar: se sou o que tenho e nunca tenho o que considero suficiente, sempre haverá uma “insuficiência de mim” que precisa ser coberta e recoberta com necessidade de acúmulo cada vez maior enquanto o fosso da insegurança aprofunda-se, na medida em que a possibilidade apavorante da perda de dinheiro para outro é um fantasma permanente. É uma vida em estado de guerra permanente para defender o que é “meu” contra aquele que deseja apropriar-se, podendo ser desde um competidor, políticas públicas de um governo que deixam de favorecer o crescimento de minha fortuna, os pobres que se mobilizam para tomar dinheiro do governo que a mim pertence “de direito”. Pois o capitalismo garante: tenho direito a possuir tudo e tudo reter para mim, sem limites.
Sim, o capitalismo é, numa linguagem popular, o encontro da fome com a vontade de comer. Nele, esta condição pulsional presente na vida de cada ser humano é organizada como um sistema social que alcançou, na expressão de Benjamin, a dimensão suprema de um culto organizado e sistemático.  O psicanalista austríaco Otto Fenichel demonstrou como, antes de tudo, a função real do dinheiro numa sociedade determina o alcance e a intensidade das tendências pulsionais de retenção.  Tais processos acontecem em sociedades determinadas com estruturas econômicas, sociais e culturais determinadas, com uma Igreja determinada e, portanto, alcançam dimensões que, levando em conta as escolhas e histórias individuais, situam-nas num contexto geográfico-temporal preciso.
Portanto, a “mobilização para a guerra” que garanta a cada indivíduo o seu “direito supremo à retenção” é o mantra do capitalismo e “mobiliza a hostilidade como tendência a despojar o outro, de modo a fazer com que o desejo de fraudar, explorar e frustrar os outros acabe se convertendo numa autêntica norma cultural.”[8] Essa hostilidade torna-se a base relacional que se reproduz em todas as relações, mesmo as mais íntimas: assim, por exemplo, o encontro com o outro ou a outra para a vida amorosa e o casamento converte-se numa série de cálculos e contratos e precauções para a possibilidade futura de separação e rompimento.
A dissonância absoluta entre o amor pelo dinheiro e o amor a Deus proclamada por Jesus e como ela atinge dimensões dramáticas no interior de um sistema que no qual o dinheiro ocupa o lugar de Deus. Trata-se de uma incompatibilidade radical, apesar de todos os esforços dos rigoristas e integristas católicos, dos neopentecostais e outros cristãos para amenizar as palavras de Jesus e relativizá-las: “Não é possível amar a Deus, isto é, amar a generosidade, a entrega, a solidariedade, a compaixão e a misericórdia e ao mesmo tempo amar o dinheiro, isto é, amar o tomar tudo para si, a acumulação que é a base de toda a injustiça e de todo o desamor: fome, guerra, exploração, morte etc.”[9]
É o que tem feito seguidamente o Papa Francisco. Uma das marcas de seu pontificado é a denúncia da submissão ao Deus-dinheiro.  A primeira vez em que explicitou sua postura foi dois meses depois de sua posse. Em maio de 2013, ele afirmou, num discurso que indicou a revolução nascente no Vaticano, que no capitalismo “criamos novos ídolos; a adoração do antigo bezerro de ouro encontrou uma nova e impiedosa imagem no fetichismo do dinheiro e na ditadura da economia sem rosto nem propósito verdadeiramente humanos” e que a base deste culto ao Deus-dinheiro está “na relação que temos com o dinheiro, em aceitar o seu domínio sobre nós e sobre as nossas sociedades”. Três anos depois, numa entrevista, em agosto de 2016, o Papa acentuou: “No centro da economia mundial está o deus Dinheiro, e não a pessoa, o homem e a mulher”. Na mensagem para a Quaresma de 2017, período que se abre com a Quarta-feira de Cinzas Francisco foi taxativo: “A ganância do dinheiro é a raiz de todos os males”.
Se para os cristãos, o amor não é apenas um preceito, mas é o conteúdo sobre o qual o cristianismo está edificado, se é a “pedra angular”, o apego ao dinheiro, fonte de desamor, não se restringe a um problema ético, mas é um ataque direto à fé. A fidelidade a Deus fica interditada para aquele que não realiza a escolha por Ele e, por caminhos explícitos ou cheios de sombras e ilusões e autoengano, opta pela  adoração à coisa: o dinheiro.
Por isso as religiões estão profundamente abaladas em seu fundamento na contemporaneidade e, muitas delas, ou tendências poderosas em seu interior, como no caso da Igreja Católica, realizam explicita ou implicitamente operações de substituição de um culto pelo outro, colocando o dinheiro no lugar de Deus. Tornam-se promotoras da tendência pulsional identificada por Jesus e estudada à profundidade pela psicanálise e igrejas-sucursais da “religião oficial”: o capitalismo.
[por Mauro Lopes]
__________________________

[1] Benjamin, Walter. O capitalismo como religião. São Paulo, Boitempo Editorial, 2013, p. 22
[2] Morano, Carlos Dominguez. Crer depois de Freud. 3ª edição, São Paulo, Edições Loyola, 2003, p.233
[3] Ibid. Morano, 2003, p. 234
[4] Ibid. Morano, 2003, p. 236
[5] Ibid. Morano, 2003, p. 239
[6] Ibid. Morano, 2003, p. 240
[7] In Morano, 2003, op cit., p. 240
[8] Ibid. Morano, 2003, p. 243
[9] Ibid. Morano, 2003, p. 246








O mito midiático do 'investidor estrangeiro', por André Araújo



"No Brasil, no oceano de ignorância sobre economia que domina a grande mídia, os únicos indicadores valorizados são os de câmbio e bolsa. Os comentaristas da Globonews são os mais rasos, para eles a economia se resume em câmbio e bolsa e, nesta última, o que interessa é o mítico "investidor estrangeiro". O padrão se repete em outras mídias, como a Jovem Pan, onde sua comentarista só conhece câmbio e bolsa, a economia se resume nisso. Na Globonews o comentarista  Donny di Nuccio, a qualquer observação sobre economia, replica "Ah, mas a bolsa subiu". Pronto, esta é para eles TODA a economia.  Na FOLHA de 19 de fevereiro de 2017, pag.A 23, um artigo "Mercado especula melhor nota do Brasil" mostra  esse viés de considerar o mercado financeiro como único indicador da economia brasileira."




 O mito do 'investidor estrangeiro'
 por André Araújo
 Fonte: Jornal GGN

  Alan Greenspan, o "maestro" do Federal Reserve System por 18 anos, passava horas na banheira lendo estatísticas da economia real: geladeiras, yougurt, pneus, caminhões, pão de hamburguer, todos dados da vida das pessoas lhe interessam. Tinha especial fixação por telhados, quantos telhados  foram vendidos na semana (nos EUA a construção se faz por conjuntos e não por peças). Era por estes indicadores que Greenspan tirava o pulso da economia que importava. Greenspan, que está com 90 anos, proporcionou o maior período contínuo de prosperidade dos EUA no pós-guerra, embora lhe atribuam culpa da crise de 2008, decorrência exatamente do excesso de confiança nessa prosperidade longa demais.
No Brasil, no oceano de ignorância sobre economia que domina a grande mídia, os únicos indicadores valorizados são os de câmbio e bolsa. Os comentaristas da Globonews são os mais rasos, para eles a economia se resume em câmbio e bolsa e, nesta última, o que interessa é o mítico "investidor estrangeiro". O padrão se repete em outras mídias, como a Jovem Pan, onde sua comentarista só conhece câmbio e bolsa, a economia se resume nisso. Na Globonews o comentarista  Donny di Nuccio, a qualquer observação sobre economia, replica "Ah, mas a bolsa subiu". Pronto, esta é para eles TODA a economia.  Na FOLHA de 19 de fevereiro de 2017, pag.A 23, um artigo "Mercado especula melhor nota do Brasil" mostra  esse viés de considerar o mercado financeiro como único indicador da economia brasileira.
No passado longínquo do início da mídia econômica no Brasil, com o jornal Observador Econômico e Financeiro, a revista BANAS, os temas eram a produção de café, de cana, de aço, de cimento, de tijolos, de telhas, cacau, de sisal, de construção de rodovias, usinas, aeroportos, havia comentaristas especializados em agropecuária, como Mario Mazzei Guimarães, comentava-se com detalhes e atenção a produçao de carne e de leite, de tubos de ferro e de concreto para saneamento, de tecidos de algodão, de farinha de trigo. Economia é isso e o Brasil só crescerá quando esses fatores voltarem a ser o centro da economia como foram nos anos, em que o Brasil cresceu e se tornou a 5ª economia do mundo, saindo de um País essencialmente agrícola para um país industrial no pós-guerra.
A partir do Plano Real e com o domínio dos "economistas de mercado" sobre a política econômica, fixou-se que a única coisa que faz andar a economia é a bolsa e, nesta, o "investidor estrangeiro", se ele não aparecer  afunda a economia, se ele trouxer dinheiro para cá, está tudo indo bem na economia  Esse mítico "investidor " é o único que os "economistas de mercado" conhecem, os fundos de investimento estrangeiros tipo BlackRock, Fidelity, Templeton que operam no Brasil via parceiros daqui e com isso garantem empregos para alguns desses "economistas de mercado",  eles são as únicas fontes de informação da mídia conservadora, que é quase toda a imprensa, rádio e tv.
Ao usar exclusivamente essa régua, os comentaristas esquecem da enorme "economia real" do País, onde está o crescimento, o emprego, a produção e o dinamismo do processo que faz as famílias sobreviverem e ter perspectivas de futuro para seus filhos.
Ao comentar câmbio e bolsa, os comentaristas da mídia oficialista tampouco aprofundam a informação. O dólar está caindo quando devia subir? Porque? Onde está a análise? Nunca vi nesses comentaristas qualquer menção ao centro do problema do câmbio, a política cambial do Banco Central, que é a de intervenção "suja" (não declarada)  e que em 2016 foi o motivo central para a derrubada do dólar, a um custo estratosférico, só no primeiro semestre de 2016 os swaps cambiais deram perda de R$ 207 bilhões ao Banco Central, mais que todo o déficit do orçamento federal que os "economistas de mercado" consideram o maior problema do Brasil. Sobre esse custo monumental nunca ouvi um mísero comentário dos jornalistas de economia da grande mídia, em primeiro lugar porque não correlacionam cotação do dólar com política cambial e, em segundo, se conhecem o "background" não convém comentar porque isso seria uma crítica ao Banco Central, que eles respeitam como o Vaticano da moeda, infalível e inatingível.
Não comentam, ou só falam marginalmente, do "carry trade", dinheiro emprestado nos EUA a 2% ao ano e aplicado aqui em títulos do Tesouro a 13%, além do lucro do diferencial de juros. Desde que começou a gestão da atual equipe econômica, esse tipo de especuladores levou para casa também o lucro cambial fantástico, dólar que entra a 3,60 e volta a 3,10 graças à generosidade do Banco Central, mas quem e porque comanda este espetaculo? Aguardam-se análises dos comentaristas da grande imprensa. Muita coisa que circula no mercado por alguma razão a imprensa não reporta e são fatos importantes da economia.
Alem da atuação catastrófica do Banco Central para empurrar o dólar para baixo visando "trazer a inflação para o centro da meta" há outro personagem que os comentaristas da Globonews veneram: o "investidor estrangeiro". Quem é ele?
O "investidor estrangeiro" é o mesmo personagem mítico que na Itália devastada pela miséria no imediato pós-guerra via no "turista americano". Nos escombros de Napoles, um "turista americano" era visto como salvador do almoço do dia. A mesma cafonice impera na fala dos comentaristas ignorantes de hoje. Vêem no "investidor estrangeiro" a salvação do Brasil sem realmente saber que é esse Mandrake que é tão reverenciado como fiel da balança da nossa estagnada economia.
O "investidor estrangeiro" de hoje, adorado pela Globonews, é um fundo especulativo da pior espécie que entra e sai da bolsa e das apostas em juros e índices, é o mais destrutivo tipo, o mais deletério, o mais inútil dos personagens em uma economia em desintegração de seus reais fatores de crescimento, o investimento privado nacional das pequenas e médias empresas que anseiam por crescer e que tem hoje tais limitaçõs que muitas definham e morrem, para essas o BNDES abre linhas de crédito que só uma carta de fiança do Banco Rothschild pode atender em termos de garantia, higidez de balanço e certidões fiscais.
Tampouco chama a atenção a falta do fundamental investimento público, primeira vítima do ajuste fiscal "à outrance" e cuja falta é uma das causas da recessão.
Fundos abutres e especulativos cujo modelo universal é o padrão Soros (Quantum Fund) são hoje o arroz com feijão da bolsa brasileira, é para eles que se pratica toda política cambial, não é para o exportador de soja, de frango e de carne bovina, o alvo a agradar é o fundo especulativo de Nova York, fundos esses que produziram 49 bilionarios na lista da revista FORBES, que vivem exclusivamente de especulação e o Brasil é um dos seus territórios preferidos porque garante saída livre sem questionamentos, o capital entra e sai como um turista do Carnaval carioca. Uma porta rotatória que gira sem parar.
Quando entra o "investidor estrangeiro" fundo especulativo, soltam rojões, mas quando sai "boca fechada", não é noticia. O mercado de câmbio no Brasil é inteiramente livre, entra e sai como e quando quiser, o investimento financeiro pode sair no mesmo dia em que seus donos decidem, bastam cliques de botão de computador. Já o investimento produtivo, em fábricas, não pode sair rápido e fácil, é preciso vender os ativos, fazer caixa para depois remeter, isso leva meses ou anos. Então o investimento produtivo é sólido, é o que interessa ao País, porisso a separação conceitual entre o financeiro e o produtivo é fundamental, nada disso é sequer de leve noticiado e muito menos analisado. A conexão do "sistema" Banco Central + mercado financeiro (uma coisa só) é exclusivo com Wall Street e não com os polos de economia produtiva dos grandes países.
O "investimento direto no Pais" IDP, tratado com tapete vermelho, quem é ele?
Quase todo IDP que chega é para COMPRA de empresas no Brasil, não é para novas fábricas, usinas ou shoppings. A razão? Como a economia está em recessão, causada pela política monetaria recessiva do BC, o preço dos ativos no Brasil caiu muito, os empresários nacionais estão vendendo suas empresas e negócios,  além de venda de concessões, privatizações e demais ativos, muitas vezes para pagar dívidas, como os das empreiteiras alvos da Lava Jato, que estão vendendo bens acumulados ao longo de décadas. O BC e seus porta vozes na mídia comemoram essas entradas que têm um efeito econômico perverso, esses IDP serão base futura de remessas de dividendos e lucros, o chamado PASSIVO EXTERNO do País, soma dos IDP mais dívida externa pública e privada mais contratos de leasing que são outra forma de passivo. O estoque registrado no BC já chega perto de  UM TRILHÃO DE DÓLARES, um valor tão grande como o da dívida pública interna, todo esse passivo exige serviço de juros, dividendos, lucros ou parcelas de leasing, uma hipoteca sobre o País que exige cada vez divisas para remessas.
A conta de "serviços" está ficando perigosamente alta e nela estao as remessas de juros, dividendos, leasing e roylalties. Em 2016, todo o saldo da balança comercial, US$ 45 bilhões, não foi suficiente para pagar as remessas, ainda faltaram US$ 24 bilhões, que foram cobertos pelas entradas do  investimento direto, mas isso significa vender a casa para pagar o almoço. O IDP entra e forma base de novas remessas futuras e o valor dele é gasto para sempre, estamos trocando ativos do País por despesas que nunca mais voltam, quando entra o IDP tudo é festa mas depois ele serve de motor para novas remessas eternas.
Ao contrário do período pré-Plano Real, o BC não informa ao público, embora sejam números disponíveis para especialistas, qual é o passivo externo, qual é a dívida pública externa e a dívida privada externa do País. NINGUÉM COMENTA esses dados cruciais, muito mais importantes do que quanto gasta turista no exterior no mês, dado de escassa relevância a não ser para mostrar que o dólar está barato demais e está sendo esbanjado nos outlets de Miami.
O que importa são DADOS MACRO do passivo externo, que ninguém comenta e são esses o dados importantes e não números pontuais mensais disto ou daquilo.
A dívida externa pública, que inclui Petrobras, BNDES e Banco do Brasil e as demais estatais, mesmo sem garantia formal, a divida externa de estatal implica em responsabilida implícita da União, a dívida pública privada também afeta o risco País pois se um grande banco ou corporação privada deixa de pagar um compromisso de imediato acende luz vermelha sobre todo o risco País, hoje a DÍVIDA EXTERNA PRIVADA é considerável, são esses os dados cruciais da economia MACRO e não o que os brazucas gastam em Miami em Janeiro ou o que os estrangeiros gastam aqui no Carnaval, temas muito comentados em toda a midia como se isso fosse de enorme importância.
E o exemplo dos dólares da China para pagar a compra da CPFL e da ENEL italiana para pagar a compra da CELG,  entradas recentes, não geram um único emprego no Brasil, ao contrário, quem compra geralmente faz um enxugamento no quadro do pessoal. Mais ainda, essas compras exigirão remessas já em 2018, um ativo que até então não gerava gasto externo de divisas, agora passa a ser fonte de remessa.
Tampouco se informa o RETORNO de capital investido, só o que entra, pode até haver déficit na conta de investimentos do exterior, o que não se explicíta para chamar a atenção apenas para a entrada e não para a saída de capital com o intuito de demonstrar a "confiança na política econômica", operação que conta com toda a colaboração da mídia apoiadora da máxima  "o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde". Sem essa visão global não vale nada dizer o que entrou em Janeiro.
Para mostrar a montanha de equívocos que se informa a população, a agência Fitch, uma das três agencias globais de rating, já anunciou que pode rebaixar a nota do Brasil, que já está dois graus abaixo do nivel de investimento, "porque a economia não cresce". Isso é revelador! E não adianta desqualificar as agências, quando deram grau de investimento se soltaram rojões na Av.Faria Lima em SP e na Rua Dias Ferreira no Leblon, catedrais dos "economistas de mercado" e suas gestoras de fortunas, a "turma da bolsa".
A Standard & Poor´s tambem mantém o viés negativo, não se impressionam com resultados mensais. Com todas as vitórias cantadas em prosa e verso pela mídia mistificadora como porta voz da equipe econômica, as agências não se deixam enganar, "onde está o crescimento?" As agências têm um olhar de longo prazo sobre a estabilidade do País, uma mega recessão com enorme desemprego mostra instabilidade política e social futura ou o BC acha que só tratar da inflação é suficiente?
Todo esse foco no "investidor estrangeiro" quase 100% de fundos e não de empresas da produção é um vício inacreditável da mídia brasileira. Porque não se interessam no crescimento ou fechamento das milhares de médias empresas do interior, são essas que realmente empregam gente, que geram riqueza sólida, que dão lastro à economia e que podem tirar o pais da recessão, não é o fundo BlackRock e nem o fundo Templeton, esses compram ações velhas que acham baratas visando vendê-las daqui a seis meses e levar o lucro de volta, não criam um mísero emprego e nem tem essa vocação.
Boa parte do investimento que entra é especulativo, a economia não cresce, o PIB de 2016 vai registrar queda de, 4,3%, em cima de 3,8% de 2015, não adianta as vanglórias do BC, podem enganar os daqui mas não engana os de fora. O Brasil não cresce por causa da política recessiva do BC, para as agências de rating não adianta nada "a inflação no centro da meta", se outros fatores centrais da economia indicam problemas de maior dificuldade de solução com a retração do PIB e o altíssimo desemprego, maior entre todos os países BRIC.
O que vale é crescimento com ou sem inflação, esse é o valor real do mundo real, fora das planilhas, é o crescimento que atrai capital ótimo e dinamizador, aliado do País a longo prazo.
O investidor que secularmente fez o crescimento brasileiro não é o estrangeiro. O Brasil se desenvolveu realmente de 1930 até 1980, 50 anos, quando o crescimento médio  foi o maior do mundo entre todos os países. O Brasil cresceu pelo seus empreendedores que construíram fábricas, mesmo com inflação e déficits enormes do orçamento federal, nasceram linhas de ônibus interestaduais, fazendas de café, cana, soja, gado, armazéns beneficadores de grãos, empresas engarrafadoras de gás de cozinha, fábricas de doces, de bebidas, de massas, retíficas de motores, indústrias mecânicas, de material elétrico, fiação e tecelagem de algodão, de seda, cerâmicas, olarias, fábricas de enxadas e arados,  sem falar do imenso parque automotivo,  que inclui tratores, do parque de bens de capital, foi daí que surgiu o crescimento e os empregos do Brasil, de suas grandes empreiteiras que fizeram o maior parque hidroelétrico do mundo, da Petrobras em expansão permanente de 1955 a 1990.
O capital estrangeiro foi sempre subsidiário, importante mas nunca o eixo da economia brasileira, me referindo ao capital de produção, o capital financeiro, esse que a mídia gosta, jamais foi bom para o Brasil, aliás foi um aspirador de dinheiro para fora do Brasil.
Hoje a mídia econômica se esfrega nesse "investidor estrangeiro", roupa dentro da qual se disfarçam tambem muitos brasileiros que usam pessoas jurídicas de paraísos fiscais para ter maior proteção para seu capital aqui, portanto parte desse "investidor estrangeiro" é brasileiro disfarçado, um fato perfeitamente conhecido do mercado mas que a mídia tradicional jamais menciona, talvez porque alguns de seus personagens se enquadram no modelo.
A coluna econômica da grande imprensa só terá algum valor quando seus comentaristas começarem a falar de tijolos e azulejos, de produção de leite, de venda de pneus e de sapatos, esquecendo a miséria intelectual de "câmbio e bolsa" que vale tanto como palpite de jogo de futebol de 3ª divisão e principalmente quando deixarem de ser meras correias de transmissão de mensagens do boletim Focus e de suas "bocas de varal", os "economistas de mercado" sempre à disposição para entrevistas, do meio dia à meia noite, repetindo os mesmos bordões acríticos e dentro de uma cartilha ensaiada.
Uma nova cruzada do Ministro da Fazenda para se viabilizar como candidato à Presidência em 2018 espalha a noção de que "a recessão acabou" (entrevista de 22/02/2017 na Globonews) o que é um delírio, uma recessão de três anos não acaba em um mês, faltou avisar as 12 milhões de familias dos desempregados que já podem ir correndo fazer compras de novas Tvs. Uma recessão acaba quando o desemprego cai de 12% para 5% e não há sinal algum de que isso esteja ocorrendo, MERCADO FINANCEIRO não é balizador de começo ou fim de recessão e é esse o único que o Ministro da Fazenda conhece, mas parece que parece que o Ministro está conseguindo convencer alguns jornalistas de que sua fantasia é real, mesmo com os índices de popularidade do Governo em níveis baixíssimos.
O debate de economia no Brasil precisa sair dos blogs corajosos e entrar na mídia tradicional, economia é hoje o fenômeno mais importante da vida da população que tem o direito de ser melhor informada sobre a realidade e não ouvir  narrativas montadas sobre o nada.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Snoopy, Chalie Brown e a reflexiva canção Trem-Bala, de Ana Vilela



 Uma bela canção, da jovem Ana Vilela, que nos faz pensar sobre o que é realmente importante na vida... Escolhemos ficar com o que e com quem é realmente importante, ou preferimos a inautenticidade dos papeis impostos pelo sistema? Vejam... Sintam... Reflitam...

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Silas Malafaia é indiciado pela Polícia Federal por participar em esquema de corrupção



O interessante é que este amigo de Bolsonaro, ex-fã de Cunha e inimigo da esquerda se pinta como exemplo de moralidade e ética "cristã", mas ajudou na onda de ódio que levou ao golpe e ao clima de guerra religiosa fundamentalista que está acabando com nosso país....

 Saiba mais em http://istoe.com.br/ate-tu-paladino-da-etica/  e em

 http://ocontornodasombra.blogspot.com.br/2017/02/policia-federal-indicia-malafaia-por.html

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Bob Fernandes: Alexandre de Moraes é ministro do Supremo. Jucá cobra integridade na "Suruba".


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"No domingo, 25 de setembro, Alexandre estava em Ribeirão Preto. Em campanha pelo PSDB.
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Diante de câmeras anunciou operação da PF. Que no dia seguinte prenderia o petista Pallocci, adversário do mesmo PSDB, na mesma Ribeirão Preto.
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Na sabatina, Alexandre garantiu não ter vazado previamente essa operação da PF. E portanto e por isso foi absolvido pela "comissão de ética da presidência"...
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Então fica combinado: o vazamento da operação, exibido no "Fantástico", não existiu. Quem alega ter assistido ao vazamento certamente fumou um paraguaio e viajou.
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Alexandre diz não plagiado nada. Apenas citou citações, com crédito genérico. E... esqueçam o que ele escreveu."


Fonte do vídeo e sua transcrição: Jornal da Gazeta

Bob Fernandes/Alexandre de Moraes é ministro do Supremo. Jucá cobra integridade na "Suruba".



Publicado em 22 de fev de 2017

Aprovado na sabatina e Senado, Alexandre de Moraes é ministro do Supremo.
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Em 3 de agosto passado, vestido como policial e com um facão nas mãos, Alexandre posou cortando pés de maconha no Paraguai.
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Na sabatina, Alexandre negou ter pregado "erradicação da maconha" na América do Sul. Foi "invenção de blogs que ninguém conhece", disse.
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Tal "erradicação" foi noticiada pelo O Globo, no espaço de Lauro Jardim.
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No domingo, 25 de setembro, Alexandre estava em Ribeirão Preto. Em campanha pelo PSDB.
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Diante de câmeras anunciou operação da PF. Que no dia seguinte prenderia o petista Pallocci, adversário do mesmo PSDB, na mesma Ribeirão Preto.
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Na sabatina, Alexandre garantiu não ter vazado previamente essa operação da PF. E portanto e por isso foi absolvido pela "comissão de ética da presidência"...
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Então fica combinado: o vazamento da operação, exibido no "Fantástico", não existiu. Quem alega ter assistido ao vazamento certamente fumou um paraguaio e viajou.
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Alexandre diz não plagiado nada. Apenas citou citações, com crédito genérico. E... esqueçam o que ele escreveu.
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Num lago, na "Chalana do amor", Alexandre se reuniu com 8 senadores; alguns investigados. Era ensaio para a sabatina? Não. Foi só em respeito aos senadores.
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Advogou para Aécio em 2014 e recebeu R$ 360 mil? Sim. Trabalhou em governos do PSDB? Sim, mas Alexandre só se filiou ao partido depois... E isso não importa.
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Não informou que a mulher advoga no Supremo? Sem problemas. Ele se dará por impedido.
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Temer o fez ministro de Estado. Um dia depois de Alexandre, secretário de Alckmin, prender quem falava em "lama" ao extorquir Marcela.
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Temer o fez ministro no Supremo. Alexandre será revisor da Lava Jato. Entre os delatados, o próprio Temer, Padilha, Moreira, e... Romero Jucá.
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Jucá passou pela sabatina, para abraçar Alexandre. Na véspera, Jucá cobrou: "Suruba é suruba. Aí é todo mundo na suruba, não suruba selecionada".
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Alexandre pode ficar no Supremo até 2043. Informa que agirá com "absoluta imparcialidade e neutralidade". Bom carnaval a todos.

Anistia Internacional denuncia ao mundo violência e perda de direitos na era Temer




247. - Novo relatório da Anistia Internacional, "Os Estados dos Direitos Humanos no Mundo", publicado nesta quarta-feira (22), alerta para as altas taxas de homicídio no Brasil, principalmente cometidos por violência policial, ressaltando casos ocorridos entre 2015 e 2016; além disso, chama a atenção para a perda de direitos de algumas minorias, especialmente jovens negros, desde a posse do governo Temer, em 2016; "O que vimos em 2016 foi o desmantelamento de estruturas institucionais e programas que garantiam a proteção a direitos previamente conquistados e a omissão do Estado em relação a temas críticos, como a segurança pública. Nenhuma crise -política, econômica ou institucional, pode ser usada como justificativa para a perda de direitos", declarou a diretora-executiva da Anistia Internacional no Brasil, Jurema Werneck



Da Rádio França internacional - O novo relatório da Anistia Internacional, "Os Estados dos Direitos Humanos no Mundo", publicado nesta quarta-feira (22), alerta para as altas taxas de homicídio no Brasil e faz duras críticas à postura do presidente Donald Trump em relação aos refugiados e imigrantes.

O Brasil ganhou um capítulo à parte no relatório. A organização internacional cita as taxas de homicídio, principalmente cometidos por violência policial, ressaltando casos ocorridos entre 2015 e 2016. Além disso, chama a atenção para a perda de direitos de algumas minorias, especialmente jovens negros, desde a posse do governo Temer, em 2016.

Os dados do documento mostram que o número de pessoas mortas pela polícia no Rio antes das Olimpíadas, entre abril e junho, foi 103% maior do que em 2015, o que testemunha a desvalorização do jovem negro, favelado, e lideranças rurais. Pelo menos 47 representantes foram mortos de janeiro a setembro de 2016. Segundo o comunicado da Anistia, "o Estado brasileiro tem falhado duplamente em seu papel de garantir o direito à vida de todas as pessoas".
De acordo com Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional no Brasil, "o que vimos em 2016 foi o desmantelamento de estruturas institucionais e programas que garantiam a proteção a direitos previamente conquistados e a omissão do Estado em relação a temas críticos, como a segurança pública. Nenhuma crise -política, econômica ou institucional, pode ser usada como justificativa para a perda de direitos", declarou.

Retórica do ódio

Segundo o relatório, que também dedica uma boa parte aos Estados Unidos, o novo presidente americano, Donald Trump, põe em prática uma "retórica do ódio", utilizando a trágica situação de refugiados e imigrantes. Essa postura atinge uma "escala global" que não era vista desde os anos 30.

Segundo a organização, a eleição do novo presidente americano, em novembro, aconteceu depois de uma "campanha que provocou consternação pelo seu discurso discriminatório, misógino e xenófobo", que "ilustra a tendência global mais violenta e divisiva de fazer política".

O relatório cita principalmente a construção do muro na fronteira com o México e a expulsão de imigrantes ilegais. O secretário-geral da AI, Salil Shetty, alertou contra o "risco de efeito dominó", quando países poderosos, como os Estados Unidos, "retrocedem em seus compromissos com os direitos humanos".

Filipinas, Turquia e Hungria

Além de Trump, a Anistia criticou o presidente filipino, Rodrigo Duterte, o turco Recep Tayyip Erdogan e o premiê húngaro, Viktor Orban, que "têm uma agenda tóxica que persegue, transforma em bodes expiatórios e desumaniza grupos inteiros de pessoas".

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Francisco x Trump, ou Cristo e as "vidas indignas de serem vividas" ou ainda: quando o ódio é usado como política de Estado - e a epidemia atual. Texto de Mauro Lopes



   "Todo outro é considerado ameaça e torna-se alvo do ódio/medo. Isso explica porque no universo dos ricos e das classes médias é disseminada a raiva aos pobres: eles são o outro que quer tomar o que “é nosso”, pedindo deitado na calçada ou organizados em mobilizações e protestos. Por isso também o ódio aos refugiados que invadem o “meu/nosso” espaço para tomar “nossos” empregos, recursos do Estado que pertencem… Não importa que este outro seja, em realidade, alguém frágil, desvalido, necessitado de apoio –ele é sempre ameaçador." - Mauro Lopes

I- Introdução de Leonardo Boff:




   Donald Trump revela sinais característicos do Anti-Cristo. São Paulo diz que a nota mais clara do Anti-Cristo é a de ser “inimigo da vida”. Ele está demonstrando este perverso sinal. É cruel para com a vida dos inocentes, separados de suas famílias, e rompe com a primeira virtude de todos os humanos que é a hospitalidade. 

   A Terra é bem comum de todos. Os limites dos países não foram traçados por Deus. Todos têm direito de caminhar pela Casa Comum e ainda mais, gozam do direito de serem recebidos como irmãos-irmãs hóspedes. E também o dever de oferecer hospitalidade a todos estes. Porque diz a Palavra da Revelação: todos somos hóspedes e peregrinos neste mundo e somente Deus é o senhor da Terra que Ele a confiou a nós para ser a Casa Comun para os humanos e para todos os seres vivos, nossos irmãos e irmãs. 

 Quem hospeda o imigrante, o pobre e o peregrino, dizem, todas as tradições religiosas da Humanidade, especialmente o Judeo-Cristianismo e o Islamismo, está hospedando Deus. Quem nega hospitalidade ao refugiado e ao imigrante está rechaçando o próprio Deus. Sobre este “inimigo da vida” de seus irmãos e irmãs, Deus costuma manifestar sua ira e atender a súplica de Maria, a mãe de seu Filho Jesus, que pediu a Ele no seu Magnificat de “derrubar dos tronos os poderosos e exaltar os humildes.” Que o Senhor, “soberano amante da vida” (Livro da Sabedoria 11,16, citado três vezes pelo Papa Francisco em sua encíclica Laudado Si) tenha misericórdia com Donald Trump e que o Espírito, doador de vida, o conduza pelos caminhos da hospitalidade, da justiça, da solidariedade, acolhida, do amor e da conivência pacífica e fraterna entre todos nos USA e no mundo inteiro



Campo de refugiados: eles são os outros a serem odiados, os inimigos que ameaçam a segurança do capitalismo e da “civilização”

II - Texto de Mauro Lopes, publicado no Caminho para Casa
Cristãos católicos escutaram nas missas do 7º Domingo do Tempo Comum (19) um trecho do Evangelho de Mateus (Mt 5,38-48) ainda no contexto do longo Sermão da Montanha, reunião de ensinamentos de Jesus no formato de um único discurso, que o evangelista completaria com discursos menores e que foi apresentado em quatro domingos consecutivos. Como um elenco de ditos, os dez versículos permitem diversas abordagens. Escolhi uma em particular: o tema do ódio em Jesus, à luz da psicanálise, como política de Estado e no âmbito das relações sociais; os impasses e caminhos propostos, especialmente, nos dias de hoje, pelo Papa Francisco e pelo conservadorismo em geral e católico em particular.
Três versículos do texto são amplamente conhecidos: aquele no qual Jesus faz a crítica  do preceito conhecido como Lei de Talião, “olho por olho, dente por dente” (v.38-39), expresso em três dos cinco livros da Torá (os cinco primeiros livros da Bíblia Hebraica, o Pentateuco); a proposta de oferta da outra face diante da agressão (v. 39); e a recomendação expressa de amar os inimigos (v. 44).
Para Jesus, o ódio nasce e é alimentado por um processo que vincula o indivíduo, seu contexto familiar e a estrutura da sociedade. No domingo anterior, o tema nas missas havia sido a necessidade de indagar e entender onde nasce o desejo de morte (v.21-22); compreender a razão de nossos desejos e sentimentos contraditórios em relação àqueles que nos são mais próximos, como os irmãos –e, primordialmente, pai e mãe (v. 23-24); ou o emaranhado emocional que envolve a vida dos casais e torna tão dramático o tema da fidelidade, como se vê hoje pela proliferação dos aplicativos de namoro e encontros e a busca de relações “virtuais” à margem dos casamentos (v. 27-28) –leia aqui.  Neste, o foco desloca-se para a instrumentalização do ódio pelos poderes (a Lei de Talião) e a necessidade de uma resposta da pessoa que negue tal caminho de dominação.
Freud, ao fundar a psicanálise, constatou séculos depois que o ódio nasce como par do amor ou ainda antes dele. Todos os bebês odeiam o desprazer que sobrevém com a fome, com o frio ou a dor de uma assadura e mais tarde, já crianças, endereçam este sentimento àquele que lhe toma algo que consideram seu direito legítimo: o acesso ilimitado à mãe. Esta mobilização  em relação à figura paterna é a origem do ódio ao outro que a pessoa entende  como usurpador de seu direito.
O outro é visto pela criança como ameaçador e usurpador e torna-se alvo do ódio –este é o percurso que vamos reter aqui. Com o tempo, há uma ampliação deste alvo para todo aquele que se configura como ameaça e usurpação. Ao mesmo tempo, a criança tende a construir códigos de pertença no processo de socialização no qual, muito lentamente há uma aliança com aqueles que se lhe aparecem como assemelhados (a família, o clã) em oposição aos “de fora” e, com o tempo, esta codificação amplia-se em função dos agrupamentos sociais, desde colegas de escola, grupos de amigos, corporações até classe social. Estes somos “nós” contra todos os que estão fora deste círculo e que representam uma ameaça, potenciais ou reais usurpadores do que a pessoa enxerga como seus direitos inalienáveis.
Todo outro é considerado ameaça e torna-se alvo do ódio/medo. Isso explica porque no universo dos ricos e das classes médias é disseminada a raiva aos pobres: eles são o outro que quer tomar o que “é nosso”, pedindo deitado na calçada ou organizados em mobilizações e protestos. Por isso também o ódio aos refugiados que invadem o “meu/nosso” espaço para tomar “nossos” empregos, recursos do Estado que pertencem… Não importa que este outro seja, em realidade, alguém frágil, desvalido, necessitado de apoio –ele é sempre ameaçador.
Um breve parêntese: dentro dos agrupamentos como a família, clã, corporação, classe social nos quais se estabelecem as cumplicidades contra o “de fora” há muita competitividade, inveja, raiva pois, afinal, todo aquele que não sou EU é OUTRO. É o que vemos nas famílias, nas associações de classe, nos partidos, igrejas e outras instituições, onde predomina um ambiente de fofoca e rixa pela proeminência e pela melhor fatia do bolo, mesmo quando a liderança maior é inconteste. Porém, quando o outro externo ao grupo aparece como ameaça ou quando há um projeto que possa significar benefícios aos seus membros, todos se unem no ódio comum, mesmo em meio ao torvelinho de fofocas e conspirações.
Os donos do poder utilizaram esta condição do ser humano como ferramenta do poder em toda a história, em todos os regimes políticos –contemporaneamente, tanto o capitalismo como o socialismo de Estado lançaram mão desta construção do outro como inimigo para construir hegemonias, consensos, e, no limite, movimentos terror.
O capitalismo potencializou ao máximo tal processo durante o neoliberalismo e ainda mais agora, numa fase em que ele está sendo superado por um turbocapitalismo voraz, representado pela ascensão de Donald Trump e da extrema-direita. É da própria essência do sistema capitalista a mobilização do ódio ao outro, pois ele se rege por um suposto “direito à primazia”: sim, você pode ser primeiro, ou mais precisamente, você tem que ser o primeiro, ou será um derrotado, um fracassado; o indivíduo tem direito a tomar tudo para si, tudo é objeto a ser arrematado e lhe pertencer de direito, dinheiro, poder, pessoas, carros, aviões, tudo está aí para ser apropriado porque na verdade é seu direito arrematar. Para isso, você deve derrotar aquele que lhe ameace a conquista destes direitos. Todo o ódio infantil é potencializado nas relações, econômicas, sociais, políticas e culturais na esfera do capitalismo e, neste início de século, de maneira exponencial, com a epidemia verificada nas redes sociais.
O Estado é concebido como ferramenta de garantia de que tais direitos serão assegurados e reproduzidos aos detentores do capital. Sob a capa da democracia, o sistema é calculado para prover tal segurança aos ricos e tornar o outro (os pobres despossuídos) como o grande inimigo. Noam Chomsky demonstrou como este foi um dos motores –talvez o principal- da construção daquela que se tornou referência de democracia e vitrine do capitalismo no século XX, os Estados Unidos. Ele encontrou algo revelador nas atas dos debates que levaram ao texto da Constituição daquele país, em vigor desde 1789: as intervenções de um dos federalistas, os “pais” da democracia norte-americana, James Madison. O que observou ele nas discussões prévias à elaboração do texto: “se na Inglaterra as eleições ‘fossem abertas a todas as classes de indivíduos, a riqueza dos proprietários de terras correria perigo. Cedo viria uma lei de reforma agrária’, concedendo terras aos que não a possuem.” Desta constatação surgiu uma conclusão que pareceu óbvia aos federalistas: “O sistema constitucional deve ser concebido de modo a evitar esse tipo de injustiça e ‘assegurar os interesses permanentes do país’, que são os direitos de propriedade. Há, dentre os estudiosos de Madison, um consenso de que ‘a Constituição foi um documento intrinsecamente aristocrático, concebido para conter as tendências democráticas da época’, conferindo poder aos ‘melhores’ e excluindo os que não eram ricos, bem-nascidos ou proeminentes no exercício do poder político (Lance Banning). A responsabilidade primeira do governo “é proteger a minoria opulenta da maioria”, declarou Madison. Esse tem sido o princípio orientador do sistema democrático, desde suas origens até os dias de hoje”.[1]
No capitalismo, o que importa mesmo é proteger os ricos dos pobres que lhes ameaçam o direito à propriedade de tudo.
Hoje vivemos o drama brutal dos refugiados que o Papa Francisco tem denunciado constantemente como a maior emergência da humanidade neste momento. Trump, os governos em geral e, na Igreja, os católicos conservadores, tratam estas milhões de pessoas como usurpadoras, homens, mulheres e até crianças que colocam todo o sistema em risco. Parece-nos, numa civilização que renunciou à história, que vivemos este drama pela primeira vez. Mas não é verdade: o tema dos refugiados acompanha a humanidade desde sempre. E foi exatamente no estudo reflexivo sobre eles que Hanna Arendt observou que sobre os refugiados despejou-se o medo-ódio no pós II Guerra, tal como vemos hoje. Num livro publicado em 1951, mas escrito na segunda metade de década anterior, quase imediatamente após o fim da guerra, em 1945, ela demonstrou como o tratamento dispensado aos refugiados decretou o fim do conceito de direitos humanos na civilização. Alguns humanos têm direitos –aos outros, os mais frágeis, ele é negado, pois é preciso defender os primeiros destes pobres que os ameaçam.
Escreveu Arendt, num trecho de seu livro sobre o qual recentemente lançou luz o filósofo Giorgio Agamben[2]: “Nenhum paradoxo da política contemporânea é tão dolorosamente irônico como a discrepância entre os esforços de idealistas bem-intencionados, que persistiam teimosamente em considerar ‘inalienáveis’ os direitos desfrutados pelos cidadãos dos países civilizados, e a situação de seres humanos sem direito algum. Essa situação deteriorou-se, até que o campo de internamento — que, antes da Segunda Guerra Mundial, era exceção e não regra para os grupos apátridas — tornou-se uma solução de rotina para o problema domiciliar dos ‘deslocados de guerra’.”[3]
Diante do “perigo” dos refugiados, liquidou-se no pós-guerra e liquida-se hoje com a farsa de um regime que supostamente ergueu-se sobre o lema da liberdade, igualdade, fraternidade: “O conceito de direitos humanos, baseado na suposta existência de um ser humano em si, desmoronou no mesmo instante em que aqueles que diziam acreditar nele se confrontaram pela primeira vez com seres que haviam realmente perdido todas as outras qualidades e relações específicas — exceto que ainda eram humanos. O mundo não viu nada de sagrado na abstrata nudez de ser unicamente humano.”[4]
Hoje, à negação dos direitos humanos do outro visto como inimigo corresponde ao fim do conceito tradicional de democracia. Vivemos, na expressão de Agamben, num estado de exceção permanente, que se espraia por todo o planeta, numa verdadeira guerra civil “que permite a eliminação física não só dos adversários políticos, mas também de categorias inteiras de cidadãos que, por qualquer razão, pareçam não integráveis ao sistema político”, numa equação segundo a qual um “estado de emergência permanente (ainda que, eventualmente, não declarado no sentido técnico) tornou-se uma das praticas essenciais dos Estados contemporâneos, inclusive dos chamados democráticos”.[5]
Trata-se de um estado sem freios e sem horizonte de superação, pois o capitalismo não existe sem a produção constante e em massa desse outro explorado, empobrecido, destituído, refugiado, morador de rua, em muitos casos subsistindo no sistema produtivo em condições análogas à de escravo. Sem estes escravos não há reprodução do capitalismo. Pode parecer um paradoxo, mas o sistema precisa desse outro para sustentar o capitalismo e, simultaneamente perpetuar o ódio.
Esta necessidade não elide, entretanto, o fato de que, diante de seus direitos inalienáveis, os donos do sistema outorgam-se, de maneira cada dia mais aberta, o direito a definir quais destes inimigos (os pobres) efetivamente têm direito à vida, como observou Agamben.
Isso explica a postura que oscila da indiferença ao apoio declarados dos ricos e largas fatias da pequena burguesia às mortes dos que consideram terem uma “vida indigna de ser vivida”: basta ver como a “opinião pública” mundial encara os refugiados e migrantes, especialmente nos EUA e Europa, a indiferença ao massacre dos presos na virada de 2016-17 no Brasil e o apoio mórbido às mortes de jovens e até crianças nas periferias que são expressados abertamente nas redes sociais, sob a lógica da frase de que “bandido bom é bandido morto”. No final de janeiro, Augusto Bezerra, um padre vinculado aos movimentos carismáticos/rigoristas apresentou em sua página no Facebook o “decreto do ódio” de maneira exemplar; escreveu ele que “o direito de ser feliz passa pelo direito de ser humano, e não animal”. A agenda do turbocapitalismo e seus agentes hoje é ampliar cada vez mais o espectro dos que devem ser considerados “bandidos” e “animais”: a esses tudo é negado, do direito à felicidade à vida.
Pode parecer um exagero de alguém que se levanta contra o capitalismo mas a expressão “vida indigna de ser vivida” existe de fato, como instrumentum laboris do sistema. Formulado pelo jurista alemão Karl Binding na década de 1920, foi a base conceitual do programa de eutanásia dos nazistas: “O conceito de ‘vida indigna de ser vivida’ é, para Binding, essencial, porque lhe permite encontrar uma resposta ao quesito jurídico que pretende colocar: ‘a impunidade do aniquilamento da vida deve permanecer limitada, como o é no direito atual (feita para o estado de necessidade), ao suicídio, ou de fato deve ser estendida a morte de terceiros?’ A solução do problema depende na verdade, segundo Binding, da resposta que se dê à pergunta: ‘existem vidas humanas que perderam a tal ponto a qualidade de bem jurídico, que a sua continuidade, tanto para o portador da vida como para a sociedade, perdeu permanentemente todo o valor?”[6]
Como observou Agamben, o fato de a expressão “vida indigna de ser vivida” ter surgido no contexto da discussão sobre a eutanásia, a questão é que ela está posta, e não como um conceito ético, mas como um conceito político que confere legalidade e legitimidade aos desejos de morte contra o outro e, aos que controlam o Estado, sob a égide da democracia burguesa, direito sobre a vida de fatias cada vez mais amplas da população.
Do lado de lá do muro, o outro: inimigo a ser abatido. O Papa versus a aliança entre Trump e alguns cardeais
Cruamente: o eixo que mobiliza o turbocapitalismo neste início de século é a mobilização do ódio. Tal lógica assumiu a liderança e o protagonismo no turbocapitalismo, cujo símbolo maior é a eleição de Donald Trump. Todo o discurso atual do capitalismo está eletrizado por este discurso e seus subprotudos: a discriminação, o sofrimento e a morte.
Há outro projeto que se antagoniza ao de Trump e do capitalismo, encabeçado pelo Papa Francisco, a partir dos ensinamentos de Jesus –exrpesso de maneira gritante no Evangelho dominical dos católicos.
Vale a pena ler um trecho do artigo Casa Branca, barrete vermelho. A referência de Stephen Bannon no Vaticano de John Gehring, diretor da organização católica Faith in Public Life, e ex-assessor da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA. Ele relata a intimidade entre os “contras” católicos, especialmente seu líder, o cardeal Raymond Burke, e o principal ideólogo de Trump, o católico de extrema direita Stephen Bannon, fundador do site Breitbart News e agora estrategista chefe e assessor sênior do presidente americano e demonstra que os “temas religiosos” estão claramente subordinados aos alinhamentos de cada qual aos dois eixos que polarizam o planeta:
Burke é um restauracionista que sente falta dos dias anteriores ao Concílio Vaticano II, com uma miríade de males modernistas existindo de modo seguro no lado de fora das barricadas de fortaleza da Igreja. Nessa sua visão nostálgica de um cristianismo triunfalista, as duras verdades da ortodoxia estão intactas e não foram contaminadas pela cultura geral ou por visões concorrentes de dentro da Igreja. (…) A crítica pública frequente de Burke à visão pastoral do Papa Francisco – a insistência do pontífice em construir uma ‘cultura do encontro’ e não alimentar a guerra cultural – transformou Burke no líder de fato de um grupo opositor a Francisco cada vez mais atuante. A islamofobia delicadamente velada do cardeal é um embaraço à Igreja e um insulto a milhões de muçulmanos pacíficos. Burke alega que a chamada ‘agenda islâmica’ não mudou ‘desde os tempos em que os nossos ancestrais tiveram de lutar para salvar o cristianismo’. A sua visão distorcida do Islã como, antes de tudo, uma ideologia política em lugar de uma religião complexa e multifacetada é, evidentemente, compartilhada por Bannon. Não nos deve surpreender que Burke tenha sido motivo de preocupação ao se encontrar com Matteo Salvini, nacionalista italiano de direita que apoia Trump e profere elogios a Mussolini.
O ódio não é uma invenção dos que ao longo da história controlaram e controlam o Estado. Há também ódio no polo oposto do espectro econômico-social. Os pobres odeiam aqueles que os oprimem e lhes arrancam a pele (os ricos) ou, quando seduzidos pelo discurso ideológico do sistema, odeiam pobres iguais a eles, vistos como o outro ameaçador -refugiados, migrantes, sem teto, sem terra…
É uma inundação de ódio. É sobre tal inundação, existente na sociedade judaica de sua época, que Jesus advertia, propondo uma trajetória distinta: em vez de ódio, amor, até mesmo aos inimigos. Mas como isso é possível? Há um caminho de conversão pessoal que cabe a cada qual decidir trilhar, custoso e cheio de senões, curvas, interrogações, posto que somos todos feitos do mesmo barro. Nos Evangelhos, Jesus indica algo para além da conversão pessoal, pois sabia que sem a liquidação das estruturas incentivadoras do ódio ao outro, a mudança, mesmo individual, é rara. Por isso ele propunha uma nova Lei, o Reino (o qual deve ser buscado comunitariamente por aqueles que aderem a seu projeto), outra forma de organização das relações econômicas e sociais (a escolha de Deus em vez do dinheiro, partilha em vez de acumulação, estruturas dialógicas em vez de hierárquicas, verticais).
São duas concepções nascidas a partir de nossos traumas: a de Jesus e aquela arquitetada pelos sistemas de dominação ao longo da história. O Papa alinha-se à lógica de Jesus, denuncia o capitalismo que semeia ódio e morte, condena todas as guerras, clama pelo acolhimento aos refugiados, insurge-se contra a exclusão e a afronta à dignidade humana, escandaliza-se com a banalização do desejo de morte do outro. “Estamos nos acostumando a insultar como dizer ‘bom dia’”, afirmou Francisco poucos dias atrás (aqui).
Mas, afinal, qual é o projeto de sociedade, que futuro pode ser desenhado para a superação de um sistema que se alimenta da disseminação do ódio?
Séculos depois de Jesus, Marx e Engels colocaram de pé um projeto capaz de ultrapassar a arquitetura potencializadora do ódio: o fim do regime da exploração/expropriação de quase todos por uns poucos (atualmente, 1% da humanidade).  No Manifesto Comunista, eles apontaram a necessidade de suprimir da sociedade a figura do burguês[7], do rico que vive de explorar os demais seres humanos e o planeta, para acumular indefinidamente. Enquanto o capitalismo precisa manter milhões, bilhões de pessoas à míngua para que 1% concentre todo o dinheiro e poder do planeta, no socialismo, com o fim deste agrupamento deveria inaugurar-se um novo tempo, em que o estímulo ao ódio fosse substituído pelo incentivo às relações amorosas -não era, ao contrário do que alardeia a propaganda capitalista, uma proposta de eliminação física de pessoas, mas de um agente econômico, social, político e cultural pela mudança no padrão de produção e apropriação. O fracasso da experiência do socialismo de Estado no Leste Europeu com todo o seu preço em eliminação das liberdades, aos direitos humanos e à vida em autonomia e paz criou um trauma brutal na humanidade e ajudou a pavimentar a estrada para o neoliberalismo.
E agora? Na verdade, ninguém ainda sabe muito bem.
Há que germinar uma alternativa. O Papa e os principais líderes da primavera da Igreja Católica têm indicado a via de pós-capitalismo, diante do esgotamento do método de governo do planeta.  Francisco articulou um fórum para que os povos meditem sobre esta via, o Encontro Mundial dos Movimentos Populares, que já teve três edições. É digna de nota a evolução do pensamento papal ao longo dos três encontros, no diálogo com líderes de movimentos sociais de todo o planeta.
No primeiro encontro, em Roma, em outubro de 2014, Francisco foi taxativo: “esse sistema não se aguenta mais. Temos que mudá-lo, temos que voltar a levar a dignidade humana para o centro, e que, sobre esse pilar, se construam as estruturas sociais alternativas de que precisamos.” E colocou na agenda a propriedade comum do planeta, numa antecipação do que seria sua encíclica Laudato Sii, lançada em maio de 2015: “a criação não é uma propriedade da qual podemos dispor ao nosso gosto; muito menos é uma propriedade só de alguns, de poucos: a criação é um dom, é um presente, um dom maravilhoso que Deus nos deu para que cuidemos dele e o utilizemos em benefício de todos, sempre com respeito e gratidão.” [leia a íntegra aqui].
No segundo encontro, em Santa Cruz de la Sierra, em julho de 2015, o Papa afirmou que o capitalismo é uma “ditadura sutil” que precisa ser superado: “Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos….” [íntegra aqui]
Finalmente, no terceiro, novamente em Roma, Francisco afirmou que é preciso “refundar as democracias que estão passando por uma verdadeira crise.” [aqui]
Superar o sistema insuportável para os povos, tornar o planeta e seus bens propriedade, refundar as democracias. Parece uma proposta consistente de enfrentamento da onda de ódio. O que têm os movimentos sociais a dizer? Como reunir os povos para construir esta alternativa?
O 4º Encontro Mundial poderá ser um espaço inédito de elaboração de uma alternativa pós-capitalista. A preparação para ele começou com um inédito Encontro Mundial de Movimentos Populares – Regional EUA que está acontecendo entre 16 e 19 de fevereiro em Modesto (Califórnia), com a presença de 700 líderes de organizações sociais de 12 países. Na carta que enviou ao encontro (aqui), o Papa Francisco abordou diretamente a relação entre o capitalismo e a epidemia de ódio: “A gangrena de um sistema não se pode maquiar eternamente porque cedo ou tarde sente-se o cheiro ruim e, quando já não se pode negar, surge do mesmo poder que criou este estado de coisas a manipulação do medo, da insegurança, da raiva, e mesmo da justa indignação das pessoas que transferem a responsabilidade de todos os males a um ‘não próximo’.”.
Nascerá o novo que modifique no longo prazo a dinâmica das relações sociais, escapando da ditadura do ódio?
Há, na visão do Papa, inspirado em Jesus, uma relação entre a esfera social e a individual que não pode ser perdida, sob o risco de a utopia degenerar novamente numa dis-topia. No 2º encontro mundial, na Bolívia, Francisco abordou diretamente esta dimensão: “Sabemos, amargamente, que uma mudança de estruturas, que não seja acompanhada por uma conversão sincera das atitudes e do coração, acaba a longo ou curto prazo por burocratizar-se, corromper-se e sucumbir. Por isso gosto tanto da imagem do processo, onde a paixão por semear, por regar serenamente o que outros verão florescer, substitui a ansiedade de ocupar todos os espaços de poder disponíveis e de ver resultados imediatos. Cada um de nós é apenas uma parte de um todo complexo e diversificado interagindo no tempo: povos que lutam por uma afirmação, por um destino, por viver com dignidade, por ‘viver bem’.”
Encarar o ódio no diálogo-ação psicanalítico, no diálogo-ação da espiritualidade (para os que creem) e no diálogo-ação político/social é um projeto de vida. Complexo, paradoxal. Mas, talvez, o único capaz de superar a norma da vida para 1% e morte-em-vida para 99% engendrada pelo capitalismo.
[Mauro Lopes]
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[1] Chomsky, Noam. O lucro ou as Pessoas, São Paulo: Bertrand Brasil, 2002, p. 25
[2] Agamben, Giorgio. Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua I, Belo Horizonte, 2ª reimpressão: Editora UFMG, 2007, p. 133
[3] Arendt, Hanna. Origens do Totalitarismo, Antissemitismo, Imperialismo, Totalitarismo, São Paulo: Companhia de Bolso, 2013, p. 242
[4] Arendt, idem, p. 258
[5] Agamben, Giorgio. Estado de Exceção, São Paulo, 2ª Edição: Boitempo Editorial, 2007, p. 13
[6] Agamben, Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua I, op cit., p. 144
[7] Marx, Karl. Engels, Friedrich. O Manifesto Comunista, São Paulo, 4ª reimpressão: Boitempo Editorial, 2005. p. 54