terça-feira, 21 de novembro de 2017

Curta de Animação, se Steve Cutts, com enfática crítica à sociedade midiática e de consumo: Você está perdido no mundo como eu?


Tocando o dedo na ferida com arte...

Do animador Steve Cutts, Are You Lost in the World Like Me?

Fonte: Youtube

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Bob Fernandes discute o racismo fascistóide nestes dias de falso moralismo



Bob Fernandes: Diogo, negro, assaltado e
espancado... Ainda frutos de 350 anos de 

escravidão


Do Canal do Jornal da Gazeta

Exibido nos últimos dias o vídeo do espancamento do ator Diogo Cintra, 24 anos.

Diogo foi assaltado por dois homens à entrada do terminal de ônibus Dom Pedro, em São Paulo. Diogo correu para dentro do terminal e pediu socorro.

Uma segurança recomendou: "Corra". Com porretes nas mãos, três homens se juntaram aos assaltantes gritando que Diogo era "ladrão".

O ator Diogo Cintra é negro.

Seguranças e passageiros se limitaram a assistir Diogo, o assaltado, ser espancado. Vários dos espectadores, e seguranças, também negros.

No Brasil, a cada 100 mortos por homicídio, 71 são negros. Quase sempre adolescentes ou jovens.

Dos mortos pela polícia, 76% são negros. Que são 67% entre os mais de 620 mil presos.

Manchetes nos últimos dias: IBGE mostra que "negros e pardos ganham o equivalente à metade dos salários dos brancos".

A atriz Taís Araújo é casada com o ator Lázaro Ramos. Excelentes atores e, à revelia deles, definidos como isso que chamam de "celebridades".

Ambos já sofreram injúria racial. Ambos são ativistas. E enfrentam a ignorância racista, quando não também fascista.

Ignorância fascistóide que se expõe também quando zurra a expressão "vitimísmo".

Injuriam, agridem, ofendem e depois ainda se acovardam, se escondem nessa expressão reveladora do quanto são toscos.

A atriz Taís Araújo resume:

-No Brasil, a cor do meu filho (dela e de Lázaro Ramos) é a cor que faz com que as pessoas mudem de calçada, escondam suas bolsas e blindem seus carros.

Ano que vem os 130 anos da Abolição da Escravidão.

As expressões "escravos", "escravidão", foram sendo naturalizadas. Os motivos para tanto são incontáveis. Mas, num dia como hoje, da Consciência Negra, é importante recordar...

...Imagine o que é você ter um dono. Que te espanca ou açoita quando quer. Que te usa e aos seus filhos a vida inteira, para tudo. Como quiser, inclusive sexualmente.

Assim foram mais de três séculos e meio dos "Senhores", "Sinhazinhas", e seus escravos. Três quartos da história na formação da nação.

A Casa Grande e a Senzala, nas suas mais amplas, diversas e complexas formas e derivações são definidoras do Brasil.

Ex-representante da Interpol e delegado aposentado da Polícia Federal, o advogado Armando Coelho fala do moralismo sem moral do MBL e seguidores



"Tem gente que não quer discutir política, pois é como religião, futebol e gosto. “Isso não se discute”. Por ser tema intocável, quando o alienado se propõe a debater o faz com frases feitas e manipuladas, produzidas pelos meios de comunicação controlados pela elite gananciosa e entreguista. Veio o golpe. Para se consolidar, era preciso cassar palavras, destruir imagens públicas, criar a narrativa do combate à corrupção, que por pouco não deu certo com Mensalão, logo substituído pela hoje agonizante Farsa Jato (cada vez mais farsa). O golpe até hoje não pode ser tratado pelo nome, por que “Tio Sam não aceita mais rupturas fora das constituições”, mesmo que fraudulentas." - Armando Coelho

Moralismo sem moral. O incômodo papel de defender Lula e o PT
por Armando Rodrigues Coelho Neto (no Jornal GGN)
Não se trata de uma partida de futebol. Nela, com visão apaixonada por um determinado time, é quase impossível ver a falta que o juiz viu contra o time pelo qual se torce. Conforme o resultado, o árbitro da partida pode ser visto até como o décimo segundo jogador, um larápio comprado. No mundo dos esportes as paixões cegam, palavrões se multiplicam. Predominam argumentos irracionais que por vezes resvalam agressões e morte. As torcidas organizadas falam por si.
Mas, não se trata de uma partida de futebol. Mas, o jogo Brasil é debatido de forma alienada. Passa pela tosca idéia dos grotões de miséria absoluta, nos quais o ignorante que diz com orgulho: “nunca perdi um voto”, pois deve votar em quem vai vencer, como corrida de cavalo. De outro giro, a decisão do jogo Brasil passa pelo voto oriundo de vícios culturais seculares, fruto do preconceito, perpetuação de riquezas, privilégios, valores elitizados. Passa, sobretudo, pela manipulação desses referenciais, promovida pelos meios de comunicação. Eis o como flui o letárgico jogo tático de 7 x 1 de ricos X pobres.
Chega de metáforas. Tem gente que não quer discutir política, pois é como religião, futebol e gosto. “Isso não se discute”. Por ser tema intocável, quando o alienado se propõe a debater o faz com frases feitas e manipuladas, produzidas pelos meios de comunicação controlados pela elite gananciosa e entreguista.
Veio o golpe. Para se consolidar, era preciso cassar palavras, destruir imagens públicas, criar a narrativa do combate à corrupção, que por pouco não deu certo com Mensalão, logo substituído pela hoje agonizante Farsa Jato (cada vez mais farsa). O golpe até hoje não pode ser tratado pelo nome, por que “Tio Sam não aceita mais rupturas fora das constituições”, mesmo que fraudulentas.
Com razão, disse a legítima Presidenta Dilma Rousseff, não foi um golpe contra ela, nem necessariamente contra o Partido dos Trabalhadores, mas sim contra o povo. O programa aprovado nas urnas foi decapitado e o que está em curso é a destruição de um projeto de pais carente de inclusão social que mal começou e já se esvai. Mais que isso, detonando avanços sociais recentes, retrocedendo em cinqüenta anos e reflexos na Lei Áurea. Como fruto de aniquilação cerebral promovido por Globo e seu rancho, sequer reações se esboçam até sobre questões acima de direita/esquerda, como nacionalismo e dignidade humana.
O resgate de valores morais, o pretenso combate à corrupção e a destruição da classe política se tornaram pontos essenciais. Com a cumplicidade da decadente Suprema Corte (e das Forças Armadas de tradições entreguistas) o golpe se consolidou. Joaquim Barbosa, Sérgio Moro e “o japonês da Federal” assumiram o posto de ídolos, viraram máscaras no Carnaval do Rio de Janeiro e bonecos gigantes no de Olinda. Abençoados pela narrativa moralista, todas as vozes que se levantaram contra passaram a ser tratados como corruptos. Desse modo, eu, que não guardo um centavo roubado, que dediquei parte de minha vida funcional ao aprimoramento do pessoal e da atividade fim da Polícia Federal, passei a ser tratado como marginal. Junto comigo, outros com igual postura.
Eis-me, pois, diante do desafio de não sendo filiado ao Partido dos Trabalhadores, ter que defender uma sigla enlameada, fruto da soma de um trabalho porco realizado por Globo/Veja “et caterva”. Na condição de defensor de corruptos acusados e sentenciados por corruptos. Com o perdão da licença poética, parto do princípio de que corrupção não é só dinheiro. Soa razoável que a corrupção vista única e exclusivamente sob a perspectiva do dinheiro é um conceito capital, mercantilista, no qual o dinheiro tem mais valor que a vida. Por ser conceito venal, é mercadoria e, por ter preço, quem rouba um pouquinho pode não ser ladrão, conforme o preço da sentença. O roubo não provado pode não ser roubo, conforme o preço do juiz, ou a quem ele possa estar servindo.
Receio que a moral de “Moros, Marinhos e Malafaias” esteja contaminada por isso. De qualquer modo, não os reconheço como quem à altura de me desancar de minhas assertivas. Coleciono larápios com discursos prontos em nome da honra, da família, da moralidade, da eficiência, bem público, contra o comunismo, do neto, do cachorro, de torturador já se revelaram canalhas.
Seria necessário chafurdar as vidas de cada canalha que consolidou o golpe? Seria preciso entrar no submundo dos falsos argumentos legais para mostrar a inconsistência moral do golpe? Seria necessário mergulhar nas violações de direitos promovidos pela Farsa Jato? Seria necessário analisar cada vazamento seletivo, cada transmissão via celular de audiência sob sigilo para desmascarar tudo? Terei que descer ao lamaçal dos votos comprados por Temer, das malas e apartamento com dinheiro? Terei que revisitar as tramóias do Pré-Sal noticiadas pelo The Guardian? Recorrer às denúncias contra Rede Globo e àquelas feitas por Tecla Duran para me demonstrar de onde brota minha inquietação cidadã?
Diante do nefasto estigma criado contra o Partido dos Trabalhadores, eis-me, pois, no incômodo papel de advogado do diabo. Defendendo o PT sem ser do partido e solidário com o melhor presidente da história desse País. Ao levar esses questionamentos a um seleto grupo de delegados da Polícia Federal, surgiu uma inspiradora nota, que não me atrevi a editar.
Se por "moralidade" se entende uma situação em que uma governante honesta é impedida de terminar o mandato para não governar para pobres. Se por moralidade se entende que os usurpadores possam rasgar os direitos sociais... Se por moralidade os cidadãos aceitam que magistrados que legitimaram o golpe podem usufruir inconcebíveis privilégios enquanto o salário mínimo é reduzido... Se por moralidade se entende que a vontade eleitoral da maioria do povo brasileiro possa ser interditada por julgamentos casuísticos e julgadores parciais... Que importa que digam que estejamos defendendo corruptos?
Se por moralidade se entende que os recursos do País sejam drenados para os mais ricos através de renúncia fiscal e retrocessos trabalhistas, enquanto se reduzem os investimentos em saúde, educação, saneamento básico, infra-estrutura...  Se por moralidade se entende que as maiores  empresas nacionais sejam impedidas de disputar mercados em prol de concorrentes estrangeiras e que nossas riquezas sejam entregues a preços vis à livre exploração por outras nações... Se por moralidade se entende que seja correto aniquilar o nosso futuro e o de nossa descendência para que velhos corruptos tenham boas comissões em negociatas atuais... Se isso é moralidade... Nós reivindicamos o direito sagrado à imoralidade.
Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e foi representante da Interpol em São Paulo

domingo, 19 de novembro de 2017

Reportagem do El País sobre o discurso de ódio que está envenenando o Brasil


Do El País:

O discurso de ódio que está envenenando o Brasil

A caça às bruxas de grupos radicais contra artistas, professores, feministas e jornalistas se estende pelo país. Mas as pesquisas dizem que os brasileiros não são mais conservadores.


Um jovem protesta contra a feminista Judith Butler, o dia 8 de novembro passado em São Paulo.
Um jovem protesta contra a feminista Judith Butler, o dia 8 de novembro passado em São Paulo. 

Artistas e feministas fomentam a pedofilia. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o bilionário norte-americano George Soros patrocinam o comunismo. As escolas públicas, a universidade e a maioria dos meios de comunicação estão dominados por uma “patrulha ideológica” de inspiração bolivariana. Até o nazismo foi invenção da esquerda. Bem-vindos ao Brasil, segunda década do século XXI, um país onde um candidato a presidente que faz com que Donald Trump até pareça moderado tem 20% das intenções de voto.


No Brasil de hoje mensagens assim martelam diariamente as redes sociais e mobilizam exaltados como os que tentaram agredir em São Paulo a filósofa feminista Judith Butler, ao grito de “queimem a bruxa”. Neste país sacudido pela corrupção e a crise política, que começa a sair da depressão econômica, é perfeitamente possível que a polícia se apresente em um museu para apreender uma obra. Ou que o curador de uma exposição espere a chegada da PF para conduzi-lo a depor forçado ante uma comissão parlamentar que investiga os maus-tratos à infância.
“Isto era impensável até três anos atrás. Nem na ditadura aconteceu isto.” Depois de uma vida dedicada a organizar exposições artísticas, Gaudêncio Fidelis, de 53 anos, se viu estigmatizado quase como um delinquente. Seu crime foi organizar em Porto Alegre a exposição QueerMuseu, na qual artistas conhecidos apresentaram obras que convidavam à reflexão sobre o sexo. Nas redes sociais se organizou tal alvoroço durante dias, com o argumento de que era uma apologia à pedofilia e à zoofilia, que o patrocinador, o Banco Santander, ante a ameaça de um boicote de clientes, decidiu fechá-la. “Não conheço outro caso no mundo de uma exposição destas dimensões que tenha sido encerrada”, diz Fidelis.
O calvário do curador da QueerMuseu não terminou com a suspensão da mostra. O senador Magno Malta (PR-ES), pastor evangélico conhecido por suas reações espalhafatosas e posições extremistas, decidiu convocá-lo para depor na CPI que investiga os abusos contra criança. Gaudêncio se recusou em um primeiro momento e entrou com um pedido de habeas corpus no STF que foi parcialmente deferido. Magno Malta emitiu então à Polícia Federal um mandado de condução coercitiva do curador. Gaudêncio se mostrou disposto a comparecer, embora entendesse que, mais que como testemunha, pretendiam levá-lo ao Senado como investigado. Ao mesmo tempo, entrou com um novo pedido de habeas corpus no Supremo para frear o mandado de condução coercitiva. A solicitação foi indeferida na sexta-feira passada pelo ministro Alexandre de Moraes. Portanto, a qualquer momento Gaudêncio espera a chegada da PF para levá-lo à força para Brasília.
“O senador Magno Malta recorre a expedientes típicos de terrorismo de Estado como meio de continuar criminalizando a produção artística e os artistas”, denuncia o curador. Ele também tem palavras muito duras para Alexandre de Moraes, até há alguns meses ministro da Justiça do Governo Michel Temer, por lhe negar o último pedido de habeas corpus: “A decisão do ministro consolida mais um ato autoritário de um estado de exceção que estamos vivendo e deve ser vista como um sinal de extrema gravidade”. Fidelis lembra que o próprio Ministério Público de Porto Alegre certificou que a exposição não continha nenhum elemento que incitasse à pedofilia e que até recomendou sua reabertura.
Entre as pessoas chamadas à CPI do Senado também estão o diretor do Museu de Arte Moderna de São Paulo e o artista que protagonizou ali uma performance em que aparecia nu. Foi dias depois do fechamento do QueerMuseu e os grupos ultraconservadores voltaram a organizar um escândalo nas redes, difundindo as imagens de uma menina, que estava entre o público com sua mãe e que tocou no pé do artista. “Pedofilia”, bramaram de novo. O Ministério Público de São Paulo abriu um inquérito e o próprio prefeito da cidade, João Doria (PSDB), se uniu às vozes escandalizadas.
Se não há nenhum fato da atualidade que justifique esse tipo de campanha, os guardiões da moral remontam a muitos anos atrás. Assim aconteceu com Caetano Veloso, de quem se desenterrou um velho episódio para recordar que havia começado um relacionamento com a que depois foi sua esposa, Paula Lavigne, quando ela ainda era menor de idade. “#CaetanoPedofilo” se tornou trending topic. Mas neste caso a Justiça amparou o músico baiano e ordenou que parassem com os ataques.
A atividade de grupos radicais evangélicos e de sua poderosa bancada parlamentar (198 deputados e 4 senadores, segundo o registro do próprio Congresso) para desencadear esse tipo de campanha já vem de muito tempo. São provavelmente os mesmos que fizeram pichações recentes no Rio de Janeiro com o slogan “Bíblia sim, Constituição, não”. Mas o verdadeiramente novo é o aparecimento de um “conservadorismo laico”, como o define Pablo Ortellado, filósofo e professor de Gestão de Políticas Públicas da USP. Porque os principais instigadores da campanha contra o Queermuseu não tinham nada a ver com a religião. O protagonismo, como em muitos outros casos, foi assumido por aquele grupo na faixa dos 20 anos que durante as maciças mobilizações para pedir a destituição da presidenta Dilma Rousseff conseguiu deslumbrar boa parte do país.
Com sua desenvoltura juvenil e seu ar pop, os rapazes do Movimento Brasil Livre (MBL) pareciam representar a cara de um país novo que rejeitava a corrupção e defendia o liberalismo econômico. Da noite para o dia se transformaram em figuras nacionais. Em pouco mais de um ano seu rosto mudou por completo. O que se apresentava como um movimento de regeneração democrática é agora um potente maquinário que explora sua habilidade nas redes para difundir campanhas contra artistas, hostilizar jornalistas e professores apontados como de extrema esquerda ou defender a venda de armas. No intervalo de poucos dias o MBL busca um alvo novo e o repisa sem parar. O mais recente é o jornalista Guga Chacra, da TV Globo, agora também  classificada de "extrema esquerda". O repórter é vítima de uma campanha por se atrever a desqualificar -em termos muito parecidos aos empregados pela maioria dos meios de comunicação de todo o mundo-, 20.000 ultradireitistas poloneses que há alguns dias se manifestaram na capital do pais exigindo uma “Europa branca e católica”.
Além de sua milícia de internautas, o MBL conta com alguns apoios de renome. Na política, os prefeitos de São Paulo, João Doria, e de Porto Alegre, Nelson Marchezan Jr., assim como o até há pouco ministro das Cidades, Bruno Araújo, os três do PSDB. No âmbito intelectual, filósofos que se consideram liberais, como Luiz Felipe Pondé. Entre os empresários, o dono da Riachuelo, Flávio Rocha, que se somou aos ataques contra os artistas com um artigo na Folha de S. Paulo no qual afirmava que esse tipo de exposição faz parte de um “plano urdido nas esferas mais sofisticadas do esquerdismo”. O objetivo seria conquistar a “hegemonia cultural como meio de chegar ao comunismo”, uma estratégia diante da qual “Lenin e companhia parecem um tanto ingênuos”, segundo escreveu Rocha em um artigo intitulado O comunista está nu.
“Não é algo específico do Brasil”, observa o professor Pablo Ortellado. “Este tipo de guerras culturais está ocorrendo em todo o mundo, sobretudo nos EUA, embora aqui tenha cores próprias”. Um desses elementos peculiares é que parte desses grupos, como o MBL, se alimentou das mobilizações pelo impeachment e agora “aproveita os canais de comunicação então criados, sobretudo no Facebook”, explica Ortellado. “A mobilização pelo impeachment foi transversal à sociedade brasileira, só a esquerda ficou à margem. Mas agora, surfando nessa onda, criou-se um novo movimento conservador com um discurso antiestablishment e muito oportunista, porque nem eles mesmos acreditam em muitas das coisas que dizem”. A pauta inicial, a luta contra a corrupção, foi abandonada “tendo em vista de que o atual governo é tão ou mais corrupto que o anterior”. Então se buscaram temas novos, desde a condenação do Estatuto do Desarmamento às campanhas morais, que estavam completamente ausentes no início de grupos como o MBL e que estão criando um clima envenenado no país. “É extremamente preocupante. Tenho 43 anos e nunca tinha vivido uma coisa assim”, confessa Ortellado. “Nem sequer no final da ditadura se produziu algo parecido. Naquele momento, o povo brasileiro estava unido.”
O estranho é que a intensidade desses escândalos está oferecendo uma imagem enganosa do que na realidade pensa o conjunto dos brasileiros. Porque, apesar desse ruído ensurdecedor, as pesquisas desmentem a impressão de que o país tenha sucumbido a uma onda de ultraconservadorismo. Um estudo do instituto Ideia Big Data, encomendado pelo Movimento Agora! e publicado pelo jornal Valor Econômico, revela que a maioria dos brasileiros, em cifras acima dos 60%, defendem os direitos humanos, inclusive para bandidos, o casamento gay com opção de adotar crianças e o aborto. “Em questões comportamentais, nada indica que os brasileiros tenham se tornado mais conservadores”, reafirma Mauro Paulino, diretor do Datafolha. Os dados de seu instituto também são claros: os brasileiros que apoiam os direitos dos gays cresceram nos últimos quatro anos de 67% para 74%. Paulino explica que “sempre houve um setor da classe média em posições conservadoras” e que agora “se tornou mais barulhento”.
As pesquisas do Datafolha só detectaram um deslocamento para posições mais conservadoras em um aspecto: segurança. “Aí sim há uma tendência que se alimenta do medo crescente que se instalou em parte da sociedade”, afirma Paulino. Aos quase 60.000 assassinatos ao ano se somam 60% de pessoas que confessam viver em um território sob controle de alguma facção criminosa. Em quatro anos, os que defendem o direito à posse de armas cresceu de forma notória, de 30% a 43%. É esse medo o que impulsiona o sucesso de um candidato extremista como Jair Bolsonaro, que promete pulso firme sem contemplações contra a delinquência.
Causou muito impacto a revelação de que 60% dos potenciais eleitores de Bolsonaro têm menos de 34 anos, segundo os estudos do instituto de opinião. Apesar de que esse dado também deve ser ponderado: nessa mesma faixa etária, Lula continua sendo o preferido, inclusive com uma porcentagem maior (39%) do que a média da população (35%). “Os jovens de classe média apoiam Bolsonaro, e os pobres, Lula”, conclui Paulino. Diante da imagem de um país muito ideologizado, a maioria dos eleitores se move na verdade “pelo pragmatismo, seja apoiando os que lhe prometem segurança ou em alguém no que acreditam que lhes vai garantir que não perderão direitos sociais”.
Apesar de tudo, a ofensiva ultraconservadora está conseguindo mudar o clima do país e alguns setores se dizem intimidados. “O profundo avanço do fundamentalismo está criando um Brasil completamente diferente”, afirma Gaudêncio Fidelis. “Muita gente está assustada e impressionada.” Um clima muito carregado no qual, em um ano, os brasileiros deverão escolher novo presidente. O professor Ortellado teme que tudo piore “com uma campanha violenta em um país superpolarizado”.






O pavor da decisão do povo nas eleições leva as elites a propor mais uma vez o parlamentarismo




"No Painel, da Folha, sai a notícia de que o ministro Alexandre de Moraes pediu para colocar na pauta de julgamentos do Supremo Tribunal Federal uma velha ação, que dormitava nos escaninhos de Suas Excelências, que questiona a legalidade de o Congresso mudar o sistema de governo para parlamentarista, mesmo ele tendo sido rejeitado pelos brasileiros em 1993, por mais de dois para um.

"É impressionante que queiram fazer de novo, agora sem plebiscito, a cassação do voto direto da população." - Fernando Brito

O pavor de eleição seduz ao golpe do golpe

parlaerte
No Painel, da Folha, sai a notícia de que o ministro Alexandre de Moraes pediu para colocar na pauta de julgamentos do Supremo Tribunal Federal uma velha ação, que dormitava nos escaninhos de Suas Excelências, que questiona a legalidade de o Congresso mudar o sistema de governo para  parlamentarista, mesmo ele tendo sido rejeitado  pelos brasileiros em 1993, por mais de dois para um.
É impressionante que queiram fazer de novo, agora sem plebiscito, a cassação do voto direto da população.
A frase teria de mudar: “eu sou golpista e não desisto nunca”.
Pergunte à pessoa mais simples que você conheça se ela concorda que em lugar de escolher quem governará  com o seu voto, ela prefere que os deputados escolham. Talvez ela não precise nem responder, é só ver como seus olhos vão se arregalar.
Aliás, basta pensar que esta mesmíssima Câmara dos Deputados que aí está elegeria, tranquilamente, Eduardo Cunha como Primeiro-Ministro, como o elegeu, com folga, para dirigir a Casa.
Alexandre de Morais, colocado por Michel Temer no STF e tucano de carteirinha, garimpou o “tesouro” judicial, herdado por ele do espólio de Teori Zavascki , que data de 1997. É que, naquele ano, o hoje ex-ministro Jaques Warner quis evitar uma manobra do agora ex-tucano Eduardo Jorge, que pretendia implantar a  mudança – sem voto popular – para eternizar o domínio tucano sobre o país.
Agora, o problema é a falta de candidato que represente, com chances, o conservadorismo em 2018.
O diligente ministro Morais soprou a poeira da ação judicial e pediu a Cármem Lúcia que marque a votação. Não é possível saber se chegarão ao descaramento de permitir que os deputados, literalmente, legislem em causa própria aquilo que foi rejeitado pelo voto popular – tinha uma história de “todo poder emana do povo e em seu nome será exercido”, lembra?
Como, deste Congresso e da Justiça tudo o que emana é fedor, sabe-se lá o risco que corremos.

Papa Francisco: “Evitemos apresentar a fome como uma doença incurável”. Artigo do El País


Do El País:

Papa Francisco: “Evitemos apresentar a fome como uma doença incurável”

Líder da Igreja católica pede que Governos deixem de lado os discursos vazios e atuem imediatamente contra as causas da falta de acesso de centenas de milhões de pessoas aos alimentos

Francisco, nesta segunda-feira na sede da FAO em Roma (Itália).Francisco, nesta segunda-feira na sede da FAO em Roma (Itália). 

No momento em que o aumento do número de pessoas com fome, os conflitos e a mudança climática ameaçam deixar para trás ou obrigar milhões de pessoas a emigrar de seus países, não fazem sentido as denúncias de fachada nem as palavras medidas para evitar comprometimentos. Essa é a mensagem que o papa Francisco dirigiu nesta segunda-feira, na sede da FAO, a agência das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), aos ministros da agricultura do G-7. “O que está em jogo é a credibilidade de todo o sistema internacional”, alertou o Papa.
Especulação com o comércio de alimentos, apropriação de terras, cortes na cooperação. Em um discurso contemporâneo, alinhado com outros que já pronunciou anteriormente, o Pontífice abordou sem subterfúgios quase todas as questões que tomam conta do debate sobre a erradicação da fome, suas causas e consequências. “Evitemos apresentar a fome como uma doença incurável”, pediu o Papa.
Na comemoração do dia internacional da alimentação, dedicado à relação entre a falta de alimentos e as migrações, Francisco mencionou as “raízes” do problema: a violência e o clima. Por isso, instou as autoridades do mundo todo a combater o tráfico de armas e a trabalhar em favor da paz. Mais uma vez, fez um apelo à comunidade internacional: “De que adianta denunciar que milhões de pessoas são vítimas da fome e da desnutrição por causa de conflitos e não fazer nada contra isso?”.
“Não é justo tirar as terras cultiváveis da população, às vezes com a cumplicidade daqueles que deveriam defender os interesses do povo”
Ele também destacou a relevância do Acordo de Paris contra a mudança climática –“do qual desgraçadamente alguns se retiraram”– e fez um chamamento por uma mudança nos estilos de vida, nos modelos de produção e no consumo de alimentos. “Qualquer discurso sério” sobre a segurança alimentar e a migração, segundo o Papa, tem de partir desses pressupostos.
Na semana passada, no mesmo local, a sede romana da FAO, reuniram-se representantes de Governos, da iniciativa privada, ONGs e entidades urbanas, camponesas e indígenas do mundo inteiro para discutir as formas de garantir uma alimentação suficiente e saudável para todo o planeta. Nesta segunda-feira, o discurso de Francisco coincidiu, em grande medida, com as denúncias feitas nesse encontro.
De forma direta, sem usar de nuances semânticas nem se referir a medidas bem-intencionadas que visariam a evitar o fenômeno, o Pontífice condenou, por exemplo, a apropriação de terras: “Não é justo tirar terras cultiváveis da população, às vezes com a cumplicidade daqueles que deveriam defender os interesses do povo”. Diante de dezenas de diplomatas e representantes governamentais, ao mesmo tempo em que denunciou a corrupção administrativa que em certos casos consome toda ajuda externa, ele insistiu que “é preciso abandonar a tentação de atuar em favor de grupos reduzidos da população”.
O Papa destacou o aumento da produção mundial de cereais como um exemplo a ser seguido, como uma forma de trabalhar atendendo às necessidades de alimentação e não à busca por lucros. “Os recursos alimentícios estão frequentemente expostos à especulação, que os encara somente em função dos ganhos econômicos dos grandes produtores ou das estimativas de consumo”, criticou mais uma vez.
Em sintonia com o discurso do diretor-geral da FAO, José Graziano da Silva, e de alguns ministros do G-7 que se pronunciaram em seguida, Francisco fez uma aposta em projetos de desenvolvimento rural que gerem emprego e protejam as populações das crises ambientais, para que a migração não seja a única saída possível para milhões de pessoas. E incitou a todos a se envolverem mais. Não é aceitável “entrincheirar-se atrás de sofismas linguísticos”, reduzindo a diplomacia, assim, “a um exercício estéril para justificar o egoísmo e a inação”. Segundo o Papa, é preciso, não tanto piedade –“a piedade se limita à ajuda emergencial”–, mas sobretudo justiça.

O SÍMBOLO AYLAN

Papa Francisco: “Evitemos apresentar a fome como uma doença incurável”
 AP
Aylan Kurdi, o menino sírio de três anos que morreu afogado em setembro de 2015 quando tentava atravessar o Mediterrâneo com sua família, é o símbolo da migração forçada dos dias de hoje. A foto de seu cadáver na areia de uma praia turca ilustra também a “indiferença” da sociedade diante de tanto horror e de tanta morte lamentada pelo Papa nesta segunda-feira.
O Pontífice presentou a FAO com uma estátua de mármore realizada por um artista italiano autodidata e que representa a imagem que, reproduzida nos veículos de comunicação e nas redes sociais, transformou Aylan em um símbolo da tragédia. Ao lado da criança, um anjo alado chora desconsolado.