sábado, 14 de janeiro de 2017

Leonardo Boff: O Deus brasileiro é Moloc que devora seus filhos


  "Diz-se que Deus é brasileiro, não o Deus da ternura dos humildes mas o Moloc dos amonitas que devora seus filhos. Somos um dos países mais desiguais, injustos e violentos do mundo. Teologicamente vivemos numa situação de pecado social e estrutural em contradição com o projeto de Deus. Basta considerar o que ocorreu nos presídios de Manaus, Rondônia e Roraima. É pura barbárie: a fúria decapita, fura os olhos e arranca o coração."


Segue o texto do teólogo, sociólogo, ecologista e ativista social Leonardo Boff:

Diz-se que Deus é brasileiro, não o Deus da ternura dos humildes mas o Moloc dos amonitas que devora seus filhos. Somos um dos países mais desiguais, injustos e violentos do mundo. Teologicamente vivemos numa situação de pecado social e estrutural em contradição com o projeto de Deus. Basta considerar o que ocorreu nos presídios de Manaus, Rondônia e Roraima. É pura barbárie: a fúria decapita, fura os olhos e arranca o coração.
Não há uma violência no Brasil. Estamos assentados sobre estruturas histórico-sociais violentas, vindas do genocídio indígena, do colonialismo humilhante e do escravagismo desumano. Não há como superar estas estruturas sem antes superar esta tradição nefasta.
Como fazê-lo? Esse é um desafio que demanda uma transformação colossal de nossas relações sociais. Será ainda possível ou estamos condenados a sermos um país pária? Vejo ser possível à condição de seguirmos estes dois caminhos, entre outros, elaborados a partir de baixo: a gestação de um povo a partir dos movimentos sociais e a instauração de uma democracia social de base popular.
A gestação de um povo: os que nos colonizaram não vinham para criar uma nação, para fundar uma empresa comercial a fim de enricar rapidamente, tornar-se fidalgos (filhos de algo), regressar a Portugal e desfrutar da riqueza acumulada. Submeteram primeiro os índios e depois introduziram os negros africanos como mão-de-obra escrava. Criou-se aqui uma massa humana dominada pelas elites, humilhada e desprezada até os dias atuais.
Abstraindo das revoltas anteriores, a partir dos anos 30 do século passado houve uma virada histórica. Surgiram os sindicatos e os mais variados movimentos sociais. Em seu seio foram surgindo atores sociais conscientes, críticos, com vontade de modificar a realidade social e de gestar as sementes de uma sociedade mais participativa e democrática.
A articulação dessas associações gerou o movimento popular brasileiro. Ele está fazendo da massa um povo organizado que não existia antes como povo mas que agora está nascendo. Ele obriga a sociedade política e escutá-lo, a negociar, e destarte a diminuir os níveis de violência estrutural.
         A criação de uma democracia social, de base popular: possuímos uma democracia representativa de baixíssima intensidade, cheia de vícios políticos, corrupta com representantes eleitos, em geral, pelas grandes empresas cujos interesses representam.
Mas em contrapartida, como fruto da organização popular já se produziram partidos populares ou segmentos de partidos progressistas e até liberais-burgueses ou tradicionalmente de esquerda que postulam reformas profundas na sociedade e visam a conquistar o poder de Estado, seja municipal, estadual ou federal.
Essa democracia participativa se baseia, fundamentalmente, nestes quatro pés, com os de uma mesa.
  • participação a mais ampla possível de todos, de baixo para cima, de tal sorte que cada um possa se entender como cidadão ativo;
  • igualdade, que resulta dos graus de participação; ela confere ao cidadão mais chances de viver melhor. Em face das desigualdades subsistentes, deve vigorar a solidariedade social;
  • respeito às diferenças de toda ordem; por isso, uma sociedade democrática deve ser pluralista, multiétnica, pluri-religiosa e com vários tipos de propriedade;
  • valorização da subjetividade humana – o ser humano não é apenas um ator social, é uma pessoa, com sua visão de mundo e que cultiva valores de cooperação e solidariedade que humanizam as instituições e as estruturas sociais.
Esta mesa, entretanto, está assentada sobre uma base, sem a qual ela não se sustenta: uma nova relação para com a natureza e para com a Terra, nossa Casa Comum como enfatiza a encíclica ecológica do Papa Francisco. Em outras palavras, esta democracia deverá incorporar o momento ecológico, fundado num outro paradigma. O vigente, centrado no poder e da dominação em função da acumulação ilimitada, encontrou uma fronteira insuperável: os limites da Terra e de seus bens e serviços não renováveis. Uma Terra limitada não suporta um projeto ilimitado de crescimento. Por forçar estes limites, assistimos ao aquecimento global e aos eventos extremos vividos neste ano de 2017 com neves em toda a Europa que não ocorriam há cem anos.
Esta consciência dos limites que cresce mais e mais, nos obriga a pensar num novo paradigma de produção, de consumo e de repartição dos recursos escassos entre os humanos e também com a comunidade de vida ( a flora e a fauna que também são criadas pela Terra e que precisam de seus nutrientes). Aqui entram os valores do cuidado, da corresponsabilidade e da solidariedade de todos com todos, sem os quais o projeto jamais prosperará.
A partir destas premissas podemos pensar na superação de nossas estruturas sociais violentas. O resto é tapeação de mudança para que nada mude.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escritor.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A ficção midiática contaminou a Política de acordo com o documentário da BBC "HyperNormalisation", por Wilson Ferreira








  A isso chama-se “HiperNormalização”, tática copiada da URSS pelo Ocidente desde Ronald Reagan nos anos 1980: levar conceitos do teatro de vanguarda e dos roteiros hollywoodianos para o centro da Política a tal ponto que a diferença entre realidade e mentira passa a ser desprezada pelas pessoas e pelo próprio jornalismo. Dessa maneira, Trump “surpreendentemente” chegou a poder nos EUA. Esse é o tema do documentário da BBC “HyperNormalisation” (2016), realizado pelo britânico Adam Curtis. A história de como a política foi derrotada pela ilusão enquanto as pessoas apolíticas desistiram de mudar o mundo, refugiando-se no ciberespaço. Enquanto isso, corporações e o sistema financeiro administram tranquilamente o deserto do real.




O texto de Wilson Ferreira foi extraído do seu site, CineGnose:

Era o ano de 2002 e o Primeiro Ministro inglês Tony Blair e o presidente dos EUA George Bush estava possuídos pela ideia de que o mundo deveria se livrar de Saddam Hussein. Estavam determinados em achar qualquer coisa que provasse as más intenções do ditador iraquiano.
Então o chefe do MI-6, o serviço de inteligência britânico, contou empolgado a Blair que tinha conseguido acesso direto ao programa de armas químicas de destruição em massa de Hussein. Disse que a fonte confirmava tudo! O Iraque estava produzindo grandes quantidades de gás Sari e VX, letais para o sistema nervoso. Estavam sendo carregados em “esferas ocas de vidro”.
Mas alguém do MI-6 notou que os detalhes relatados pela fonte eram idênticos às cenas do filme A Rocha (1996) com Sean Connery e Nicolas Cage.
As diferenças entre realidade e ficção ficam ainda mais tênues quando percebemos que os anos que antecederam aos atentados nos EUA em 2001 tiveram um inédito pico de produção de filmes hollywoodianos sobre destruição em massa perpetrados por aliens, monstros e terroristas como, por exemplo, Independence Day ou Godzilla. E Nova York era sempre a cidade icônica das catástrofes. 
Essas são algumas das histórias narradas pelo documentário HyperNormalisation (2016), documentário BBC do britânico Adam Curtis (O Século do EgoAll Watched Over by Machines of Loving Grace). O tema geral do documentário é mostrar como, desde a década de 1970, governos, financistas, jornalistas e utopistas tecnológicos abandonaram o mundo real e não só construíram como também passaram a viver nesse mundo falso simplista, esquemático e maniqueísta. Um mundo administrado por corporações e mantido estável pela política. 
Esse mundo simplista passou a ser administrado pela “gestão da percepção”, uma versão hiper-realizada da antiga engenharia de opinião pública – enquanto no passado, através das técnicas clássicas de retórica, mobilizava-se uma engenharia de relações públicas para inculcar ideologias, ideias ou conceitos, agora com a “HiperNormalização” criam-se “climas de opinião” e “ondas de choque” cujo eixo central e apagar as fronteiras entre ficção e realidade – mais precisamente, entre as narrativas de entretenimento (filmes, animações, literatura, minisséries etc.) e os acontecimentos pautados pelo noticiário da grande mídia.

Aversão à política e individualismo


Dividido em nove episódios, Curtis mostra como a estratégia de HiperNormalização surgiu na antiga União Soviética nos anos 1970 para depois ser adotada pelas potências do Ocidente. Durante o colapso econômica da URSS, o governo soviético mantinha a aparência de normalidade como se tudo pudesse ser planejado a partir de imagens grandiosas, tal como as glórias olímpicas no esporte. Resignados e desiludidos com a política, os cidadãos tocavam suas vidas fingindo que tudo estava normal porque não encontravam alternativas para o futuro. O escritor Alexei Yurchak chamou isso de “HiperNormalização”, uma espécie de profecia-autorrealizável aceita por todos como real.
No Ocidente, a estratégia da HiperNormalização foi fundada em dois princípios: a aversão à Política porque é algo muito complexo e, em si, corrupta; e o refúgio no individualismo e em narrativas que, num “efeito bolha”, simplificavam o mundo por meio de narrativas esquemáticas inspiradas em produções de entretenimento. 
Para Adam Curtis, a partir dos anos 1970 toda uma geração desistiu de transformar o mundo, refugiando-se no individualismo empoderado por um verdadeiro flashback lisérgico dos anos 1960: a utopia tecnológica do ciberespaço nos anos 1980 (principalmente na visão utópica de John Barlow) como um mundo alternativo livre das restrições políticas e jurídicas, mas que escondia o poder crescente das corporações financeiras.

Desconexão do real


O mundo da especulação financeira que cresceu a partir do colapso econômico de Nova York de 1975 – com a crise fiscal, a cidade foi entregue à ideia de que os sistemas financeiros (e não mais o Estado) podiam gerir a sociedade. Donald Trump emerge nesse momento, adquirindo imóveis abandonados sob isenção de impostos, tornando Nova York uma cidade elitista.
Trump, ao lado do presidente Ronald Reagan nos anos 1980, seriam os precursores de um tipo de política totalmente desconectado da realidade com uma gestão de percepção capaz de distrair as pessoas das complexidade do mundo real – por exemplo, a criação midiátia do super-vilão Muammar Kadhafi como responsável por atentados em Roma, Viena e numa discoteca em Berlim naquela década. 
Papel prontamente aceito pelo líder líbio, que não resistia aos holofotes da grande mídia. Como mais tarde nos anos 1990, na Guerra do Golfo, Saddam Hussein também aceitaria o mesmo papel na sua cruzada em se tornar um midiático líder do povo árabe.
Enquanto isso, antigos líderes da causa socialista nos EUA como a atriz Jane Fonda desistiam do mundo real: o documentário mostra um dos seus vídeos de exercícios aeróbicos na TV exortando as pessoas a cuidarem do seu próprio corpo porque “o mundo lá fora é complicado demais e, pelo menos, podemos controlar o próprio corpo”.

Acreditando na própria mentira


O mais incômodo no documentário HyperNormalisation não é tanto o fenômeno da “gestão da percepção”, mas principalmente como os líderes ocidentais parecem crer nas próprias narrativas criadas pelos seus assessores, relações públicas e serviços de inteligência. 
Enquanto a Política transforma-se numa espécie de mundo autônomo de simulações no qual os seus líderes entram de tal forma nos papéis ficcionais que esquecem quem foram, no mundo real corporações e o sistema financeiro administram o equilíbrio sistêmico de lucros e desigualdade, livres de qualquer escrutínio de uma sociedade que desistiu do mundo real.
Para Curtis, esse mundo global, cuja estrutura foi imaginada pelo Secretário de Estado Henry Kissinger nos anos 1970, só foi possível com a divisão do mundo árabe e a manutenção dos conflitos no Oriente Médio.
Trump, Obama, Reagan, Blair, Bush, etc. seriam líderes que acreditam nas suas própria pantomimas. Personagens ficcionais criados para consumo massivo através da grande mídia e que simplificam a complexidade da política real ao participarem de narrativas ficcionais, muitas vezes extraídas de roteiros de sucessos hollywoodianos.


Jornalismo difícil


HyperNormalisation mostra ainda que fazer jornalismo nesse cenário torna-se cada vez mais complicado. Além da grande mídia virar uma correia de transmissão para essas narrativas simplistas, a própria essência, digamos assim, “hermenêutica” do jornalismo (encontrar a verdade por trás da mentira) é colocada em xeque – expor mentiras e falar a verdade sempre foi a crença dos jornalistas.

Porém, como encontrar a verdade se a própria matéria-prima das informações tornam-se não-acontecimentos? Nesse ponto, o documentário converge com as teorias do pensador francês Jean Baudrillard sobre a ordem dos simulacros e simulações. Para Baudrillard, os simulacros substituiriam a própria realidade a tal ponto que chegaríamos ao estágio final com o hiper-real: para toda a sociedade a distinção entre realidade e ficção passa a ser cada vez mais ociosa. Ninguém mais se importa com isso quando tanto uma coisa ou outra produz efeitos reais: guerras, atentados, ódio, crises, mortes etc.

Adam Curtis dá dois exemplo de como o jornalismo simplista foi muitas vezes derrotado pela realidade: primeiro, a queda do Muro do Berlim e o fim da União Soviética que pegou tanto a imprensa quanto escritores e acadêmicos de surpresa, de tanto o Ocidente estar mergulhado no simplismo hollywoodiano criado por Ronald Reagan.

E segundo, a vitória de Donald Trump na eleição presidencial: Trump derrotou o jornalismo porque para ele a diferença entre a verdade e a mentira é irrelevante. De tanto levar à sério suas pantomimas como fossem ações políticas reais, paradoxalmente sempre o consideraram uma piada.


HiperNormalização, polarização e ódio


Para Curtis, não é surpreendente que Vladimir Putin o admira. Por trás do presidente russo está Vladislav Sukov, profissional que veio do mundo do teatro cuja gestão de percepção baseia-se em pegar ideias do teatro de vanguarda e colocá-las no centro da política.

Surkov transformou a política russa em uma confusa e constante troca de peças. E com isso minou a percepção do público para que nunca tivessem certeza do que estava acontecendo. Resultado: as pessoas criam crescente aversão à política, mas, paradoxalmente, voltam a interessar-se por ela através das narrativas simplistas e ficcionais que sempre catalisam sentimentos e emoções nos telejornais – a pobre menina twitteira de Aleppo, Síria; os terroristas feios, sujos e malvados do ISIS etc.

Por isso, a explosão da polarização política, ódio e intolerância, tão bem explorados por Trump e, como destaca Curtis, também nas diversas “Primaveras” que floresceram na Tunísia, Egito e outros países árabes – e, por que não dizer, também no Brasil onde a polarização política (que deu força a todo inconsciente cultural reprimido pela democracia – intolerância, racismo, misoginia, xenofobia etc.) foi o combustível para transformações políticas exigidas por aquele complexo mundo real distante da gestão de percepções: as demandas corporativas e financeiras de uma secreta geopolítica global. 

As mais de duas horas de HyperNormalisation são um verdadeiro bombardeio de informações e imagens documentais que suscitam uma série de subtemas que vão além do espaço dessa postagem. Entre esses subtemas está o papel do ciberespaço na gestão da percepção: como o conceito de Inteligência Artificial dos anos 1960-70 se transformou nos algoritmos atuais com os quais também se gerencia essa fuga individualista desesperançada de usuários apolíticos para a Internet e redes sociais.

Mas isso será tema de uma próxima postagem. Assista ao documentário completo abaixo. Legenda ocultas. Clique em "detalhes" para converter legenda em português.



Trecho do Vídeo (com legendas em português)






"HyperNormalisation" (Adam Curtis, 2016)

Ficha Técnica


Título: HyperNormalisation
Direção: Adam Curtis
Roteiro:  Adam Curtis
Elenco:  Adam Curtis, Donald Trump, Vladimir Putin, Patty Smith, Henry Kissinger
Produção: British Boradcasting Corporation (BBC)
Distribuição: BBC
Ano: 2016
País: Reino Unido

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segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Julian Assange: Para obter apoio ao Golpe, Temer e asseclas entregaram informações sigilosas sobre o Brasil aos Estados Unidos





Do 247:



Em entrevista exclusiva ao escritor Fernando Morais, editor do Nocaute, o fundador do Wikileaks, Julian Assange, afirmou que Michel Temer forneceu informações estratégicas sobre o Brasil à embaixada norte-americana, em troca de apoio dos Estados Unidos ao golpe parlamentar de 2016; "Michel Temer teve reuniões privadas na embaixada dos Estados Unidos e forneceu informações políticas às quais muitos não tinham acesso. Não digo que ele tenha sido um espião pago. Falo de outra coisa: de trocar informação por apoio político", afirma; administração de Barack Obama, que tem John Kerry como secretário de Estado, apoiou três golpes recentes na América Latina: os de Honduras, Paraguai e Brasil



247 – Em entrevista exclusiva ao escritor Fernando Morais, editor do Nocaute, o fundador do Wikileaks, Julian Assange, afirmou que Michel Temer forneceu informações estratégicas sobre o Brasil à embaixada norte-americana, em troca de apoio dos Estados Unidos ao golpe parlamentar de 2016.
"Michel Temer teve reuniões privadas na embaixada dos Estados Unidos e forneceu informações políticas às quais muitos não tinham acesso. Não digo que ele tenha sido um espião pago. Falo de outra coisa: de trocar informação por apoio político", afirma.
A administração de Barack Obama, que tem John Kerry como secretário de Estado, apoiou três golpes recentes na América Latina: os de Honduras, Paraguai e Brasil. Isso explica por que Temer e seu chanceler José Serra torceram tanto por Hillary Clinton na disputa eleitoral norte-americana em 2016.
A íntegra da entrevista com Assange será publicada nesta semana pelo Nocaute.
Abaixo, um trecho da entrevista:

domingo, 8 de janeiro de 2017

Em época de golpes e 100 bilhões doados a empresas de telefonia, o Brasil anda na contramão da Internet Livre


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Do Observatório do Direito à Comunicação:


BRASIL: NA CONTRAMÃO DA INTERNET LIVRE


Entidades denunciam ameaças à rede no Brasil. Governo brasileiro reagiu, negou problemas e disse que há pleno diálogo dentro do País
Por Jonas Valente* - Foto: TecMundo
Mais de 40 entidades do mundo todo divulgaram, na última semana, um documento apontando grandes preocupações com retrocessos nas políticas de Internet no Brasil e declarando apoio ao enfrentamento que vem sendo feito pela sociedade civil brasileira, dentro de casa, contra tais medidas.
O “Manifesto de Guadalajara” foi lançado durante o Fórum de Governança da Internet (IGF), principal evento global sobre o tema, que ocorreu na cidade mexicana que dá nome ao texto, entre 5 e 9 de dezembro.
O encontro reuniu mais de dois mil representantes de governos, organizações da sociedade civil, pesquisadores e empresas da área de tecnologia da informação e da comunicação.
O documento destaca o fato de que o Brasil está caminhando da posição de marco internacional positivo nas iniciativas de regulação da rede para tornar-se um exemplo de medidas contrárias à promoção de uma Internet livre e acessível.
Na última década, o país assumiu a condição de referência global neste campo em função da atuação do Comitê Gestor da Internet (CGI), da aprovação do Marco Civil da Internet e por ter recebido em casa eventos internacionais como o NetMundial e o próprio IGF, em duas ocasiões.
No entanto, medidas adotadas recentemente pelo governo de Michel Temer e diversos projetos de lei que tramitam de maneira acelerada no Congresso Nacional jogam o país em outra direção.
Na área de acesso à web, a aprovação do projeto de lei 79 pelo Senado, na última semana, é um retrocesso grave. O texto modifica a Lei Geral de Telecomunicações e acaba com as obrigações de universalização dos serviços que poderiam ser aplicadas à Internet.
O projeto também entrega um patrimônio público no valor de mais de R$ 100 bilhões (em infraestrutura operacional e de rede) às operadoras de telecomunicação, sem contrapartidas concretas que viabilizem a conexão dos mais de 100 milhões de brasileiros que hoje estão excluídos digitalmente.
A oposição, em articulação com a Coalizão Direitos na Rede, que reúde entidades da sociedade civil brasileira que defendem os direitos dos usuários na internet, deve garantir, nesta sexta 16 um recurso para que o texto seja ao menos debatido pelo plenário do Senado.
A sanha do governo federal, entretanto, em se desobrigar de universalizar o acesso à internet no país é grande.
O governo Temer já anunciou que quer deixar este importante esforço apenas nas mãos do mercado, abandonando a perspectiva de planos de banda larga para garantir o acesso à rede, como tem ocorrido em boa parte dos países.
Mudanças no Marco Civil e ataques ao CGI
Outra preocupação ressaltada pelo Manifesto de Guadalajara é o conjunto de iniciativas em curso para alterar e minar o Marco Civil da Internet (Lei 12.695/2014).
Atualmente, há mais de 200 projetos de lei neste sentido tramitando no Congresso. Entre os retrocessos pretendidos está o fim ou a flexibilização do princípio da neutralidade de rede (que proíbe a discriminação no tráfego de dados), a possibilidade de acesso a dados pessoais sem autorização judicial, e a remoção de conteúdos publicados online mediante simples mecanismos de notificação.
As medidas atacam preceitos fundamentais reafirmados no Marco Civil da Internet, como privacidade e liberdade de expressão, que fizeram a lei brasileira se tornar referência internacional nestes temas, e várias delas já foram debatidas aqui no blog.
As entidades internacionais também alertaram para os riscos das recorrentes suspensões de aplicativos como o Whatsapp no Brasil.
O intuito de acessar mensagens desses aplicativos para fins de investigações policiais tem motivado diversas decisões judiciais desproporcionais, que resultam na interrupção do acesso de todos os usuários a esses serviços.
A prática gerou reações tanto no Parlamento – que deve votar em breve o PL 5130/2016, que proíbe o bloqueio de aplicativos – quanto no Supremo Tribunal Federal, que julgará em 2017 uma ação de inconstitucionalidade contra os bloqueios.
Até mesmo o Comitê Gestor da Internet no Brasil, exemplo internacional de órgão de governança multissetorial da internet, está sob ameaça. Criado há mais de 20 anos por meio de um decreto presidencial, o CGI tem sofrido ingerências do governo Temer nos últimos meses.
O processo de eleição da próxima gestão de conselheiros, por exemplo, teve a composição de sua comissão eleitoral original alterada para a inclusão de mais membros do Executivo.
E o governo já declarou que tem a intenção de reduzir o papel da sociedade civil (uma das partes representadas, ao lado das empresas, da academia e da comunidade técnica) no espaço.
A disposição de limitar vozes que representam os interesses dos usuários na gestão da internet no país é mais um viés autoritário da administração Temer, denunciado internacionalmente no IGF.
Reação do Itamaraty
Apresentado na sessão de encerramento do IGF por representantes da Coalizão Direitos na Rede e mencionado nos discursos finais tanto do representante da comunidade técnica quanto da sociedade civil, o Manifesto de Guadalajara provocou a reação do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, que lá representava o governo federal.
Benedito Fonseca Filho pediu a palavra para questionar a manifestação das entidades. Disse “estranhar” a posição da sociedade civil brasileira em levar um assunto como este para um fórum internacional, considerando que o país vive uma “plena democracia” e que há espaço para diálogo com as entidades.
A reação do Itamaraty revela o desconforto da gestão Temer com mais uma denúncia internacional e a feição autoritária contra críticas da sociedade civil.
Os desafios do IGF
A 11a edição do Internet Governance Forum promoveu importantes debates sobre o futuro da governança da internet.
Não foram poucas as atividades que colocaram preocupações, por exemplo, com as violações aos direitos humanos na rede, o que envolve desde a proteção à privacidade dos cidadãos até a liberdade de expressão e os direitos de crianças e adolescentes no mundo virtual.
No entanto, enquanto nações afirmam reiteradamente que estão preocupadas em alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU – que incluem a garantia do acesso à rede pela população mundial – ainda há poucas iniciativas para enfrentar efetivamente, em escala global, o desafio de conectar os 3,9 bilhões de cidadãos que ainda estão fora da rede e para garantir os direitos dos demais que já estão na web, especialmente em questões como privacidade e liberdade de expressão.
Para pautar estes desafios, entidades da sociedade civil debateram no IGF a realização de um evento específicos deste segmento. A iniciativa, chamada de “Fórum Social da Internet”, em referência ao Fórum Social Mundial, deve ocorrer na Índia no segundo semestre do ano que vem.
Diversas redes e entidades da sociedade civil estão envolvidas nesta construção, incluindo as brasileiras. Em 2017, o IGF volta a se reunir em dezembro, desta vez em Genebra, na Suíça.
* Jonas Valente é jornalista, mestre em Comunicação e doutorando em Sociologia pela Universidade de Brasília. Integra o Conselho Diretor do Intervozes e foi um dos representantes do coletivo em Guadalajara.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Resenha do filme-documentário de Michael Moore "Onde Vamos Invadir Agora?", ou "O Invasor Americano", uma verdadeira lição também aos reacionários do Brasil





Texto de Carlos Antonio Fragoso Guimarães


 Sim, 2016 foi um ano horrível. Mas isto não quer dizer que foi um ano em que a imbecilidade venceu todas. No cinema - apesar de todo o boicote de uma mídia golpista e golpeadora - vimos filmes excelentes, como SNOWDEN, de Oliver Stone, e o nosso AQUÁRIOS, de Kléber Mendonça FIlho com o brilhantismo de Sônia Braga em uma história de resistência contra a opressão do poder econômico (por sinal, os dois filmes foram boicotados pelos envolvidos no Golpe de 2016 no Brasil, especialmente a cínica "grande mídia")... E que chamou parte da atenção do mundo sobre o Golpe Midiático-Parlamentar-Jurídico de 2016...

 Mas não apenas estes chegaram a nossas vistas - ou, ao menos, aos interessados pelo cinema de conteúdo e de crítica social. Depois de seis anos desde seu último trabalho, Capitalismo, uma história de amor, o cineasta Michael Moore, de Tiros em Columbine, Farenheit 11 de setembro, Roger e Eu e SIKO - $O$ Saúde (todos excelentes e indispensáveis a quem quer se inteirar dos motivos pelos quais o mundo hoje está como está), mais uma vez apresentou um trabalho radiográfico sobre os desmandos do Grande Irmão do Norte, ou melhor, de seu governo, controlado pelos interesses do deus-Mercado.

  Em "Where to Invade Next"  (literalmente "Onde Vamos Invadir Agora"),  de 2015 - que por aqui também apareceu com o titulo "O Invasor Americano" (e com este título pode ser assistido no Netflix)- Moore é o "invasor" americano que vai visitando diversos países para ver como estes tratam de questões como educação, saúde, universidades gratuitas, etc - países como Itália, França, Finlândia, Eslovênia, Alemanha, Portugal, etc.,  em que se valoriza o trabalho, se tem 13 terceiro salário, 35 dias de férias remuneradas, de uma a duas horas para o almoço, boa assistência à saúde, licença maternidade, aposentadoria garantida e todos defendem estas coisas, inclusive os empresários (o que estamos fazendo no Brasil dos golpistas e coxinhas?). Moore constata tudo isso e compara-os com o sistema americano e sua mentalidade mecanicista-taylorista-fordista "time is money" onde a preocupação com o humano é entendida pelos donos do poder como prejuízo, o que faz o sistema neoliberal rejeitar e atacar o modo como os outros tratam destes temas de bem-estar social e valorização das pessoas, sem querer ver que estes países não deixaram de crescer e de lucrar com isto. Fica patente que a principal vítima do sistema "empresarial" imposto pelo neoliberalismo no governo americano é a sua própria população, e Moore sabe como deixar isso bem patente, de forma humorada e, ao mesmo tempo, séria... E é este modelo americano, onde uma nova forma de escravidão se impõe, que os golpistas querem para o Brasil.
 
   Moore também não deixa de alfinetar o imperialismo e a indústria da Guerra capitaneada pelo lucrativo mercado da violência e das invasões a pretexto de... manter a Democracia! Infelizmente, este trabalho não será apreciado por todos, em especial pelos que se deixam simplesmente moldar pelo que fala ou manda a chamada "grande mídia" empresarial... O midiota aceita tudo o que vem da mídia empresarial e não se dá ao trabalho de questionar ou aprender com outras culturas e com a História.

  Deixo ao leitor, agora, o link para o documentário esperando que tire suas próprias conclusões sobre a obra...


Giorgi Agamben, filósofo intaliano: "Crise", hoje em dia, significa simplesmente "você deve obedecer!"






Crise

   “Crise” e “economia” atualmente não são usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. ”Crise” hoje em dia significa simplesmente “você deve obedecer!”. Creio que seja evidente para todos que a chamada “crise” já dura decênios e nada mais é senão o modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional.

   Para entendermos o que está acontecendo, é preciso tomar ao pé da letra a ideia de Walter Benjamin, segundo o qual o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro. Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro. 
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   O Banco – com os seus cinzentos funcionários e especialistas – assumiu o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram de sua soberania), manipula e gere a fé – a escassa, incerta confiança – que o nosso tempo ainda traz consigo. Além disso, o fato de o capitalismo ser hoje uma religião, nada o mostra melhor do que o titulo de um grande jornal nacional (italiano) de alguns dias atrás: “salvar o euro a qualquer preço”. Isso mesmo, “salvar” é um termo religioso, mas o que significa “a qualquer preço”? Até ao preço de “sacrificar” vidas humanas? Só numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudo-religiosa) podem ser feitas afirmações tão evidentemente absurdas e desumanas.



Tradução: Selvino José Assmann

Luis Nassif: o xadrez da teoria que sustenta o Golpe...


"O poder de fato está em uma entidade chamada mercado.
É o mercado quem forneceu o fio agregador do golpe, o objetivo final, o componente ideológico capaz de criar uma agenda econômica alternativa, em torno dos quais se agruparam a mídia, o PSDB e se induziu à politização de instituições, como o STF (Supremo Tribunal Federal) e o MPF (Ministério Público Federal), montando o círculo inicial que passou a dar as cartas no governo Temer e, possivelmente, no pós-Temer."


Segue o texto de Luis Nassif, publicado no Jornal GGN

Peça 1 – as ideias e a conspiração

Nessa geleia geral em que se transformou o golpe, uma boa análise estratégica exige a tipificação mais detalhada do papel de cada personagem.
O poder de fato está em uma entidade chamada mercado.
É o mercado quem forneceu o fio agregador do golpe, o objetivo final, o componente ideológico capaz de criar uma agenda econômica alternativa, em torno dos quais se agruparam a mídia, o PSDB e se induziu à politização de instituições, como o STF (Supremo Tribunal Federal) e o MPF (Ministério Público Federal), montando o círculo inicial que passou a dar as cartas no governo Temer e, possivelmente, no pós-Temer.
É a parte mais eficiente do golpe, seguindo um roteiro fartamente descrito em obras como “A Teoria do Choque” de Naomi Klein. Confira, a propósito, o “Xadrez da Teoria do Choque e do Capitalismo de Desastre” ( https://goo.gl/vZYVzy).
Dado o golpe, reza a teoria (importada da Escola de Chicago), se tem seis meses para emplacar as medidas mais drástica e consolidar o novo modelo.
A nova equipe econômica avançou como um bólido sobre os instrumentos econômicos do Estado, com um plano de ação completo, meticulosamente preparado desde que o PMDB apresentou a tal Ponte Para o Futuro.
Não se trata de um plano de estabilização, capaz de reverter a crise, mas de um desmonte do Estado que aprofundará a crise. É a estratégia da terra arrasada, visando sepultar qualquer vestígio do antigo modelo, independentemente dos custos para o país e seu povo.
·      Apresentou a PEC 55 que, aprovada, acaba com qualquer possibilidade de política fiscal anticíclica e manieta todos os futuros governos.
·      Se vale da crise fiscal para garrotear os governos estaduais.
·      Esvaziou o BNDES, fazendo-o pagar antecipadamente R$ 100 bilhões ao Tesouro.
·      Ampliou a degola das empreiteiras nacionais, proibindo financiamento à exportação de serviços e às empresas mencionadas na Lava Jato.
·      Prepara-se para vender a carteira de ações do BNDES na bacia das almas.
·      Montou uma queima de ativos da Petrobras, em um momento em que todos os ativos nacionais estão depreciados pela crise e os ativos petrolíferos depreciados pelas cotações de petróleo. Vende para reduzir passivo. Deixa de lado todos os investimentos na prospecção, nas refinarias e nos estaleiros (que garantiriam a expansão imediata e a longo prazo) para quitar antecipadamente (!) financiamentos contratados junto ao BNDES. Nenhuma empresa com crise de liquidez quita antecipadamente financiamentos. No máximo, reestrutura passivos.
·      Começou a esvaziar o FGTS, facilitando o saque das contas.
·      Com a ajuda da Lava Jato, jogou a pá de cal na cadeia produtiva do petróleo e gás, no sonho dos estaleiros nacionais, na expansão do capitalismo brasileiro para África e América Latina. Busca a destruição da maior empresa privada brasileira, a Odebrecht, a empreiteira que mais incomodava os concorrentes norte-americanos.
·      Na diplomacia, acabou de matar o protagonismo do Itamarati.
Para atingir seus objetivos, o sistema tem permitido a proliferação das maiores jogadas que o Congresso e o Executivo já ousaram em sua história recente:
·      A iniciativa de entregar às teles os ativos acumulados durante o período de concessão. Aliás, o senador Jorge Viana (PT-Acre) deve explicações a seus eleitores e admiradores.
·      A jogada de transformar multas das teles em obrigação de investimento, reeditando estratagema utilizado pelo inacreditável Paulo Bernardo, quando Ministro das Comunicações. Na prática, equivale a perdoar as dívidas, já que os investimentos teriam que ser feitos de qualquer maneira, por obrigação contratual ou exigência de mercado.
·      A compra gigantesca de produtos Microsoft, interrompendo o trabalho de disseminação do software livre.
·      As jogadas escandalosas do senador Romário, de depositar nas mãos das APAEs e das Sociedades Pestalozzi o controle de toda a educação inclusiva.
·      A tentativa de emplacar os cassinos e casas de bingo.
·      A enxurrada de dinheiro público despejado nos veículos de mídia, cujo melhor exemplo é a campanha milionária de prevenção da Zika e falta de remédios para as grávidas.
·       A MP 754 que faculta à CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos) autorizar reajustes a qualquer momento. A lei que criou a CMED, em 2003, autorizava-a a determinar apenas reajustes anuais de preços. Agora, haverá reajustes, a qualquer momento, dependendo de uma plêiade de Varões de Plutarco: Ricardo Barros, Ministro da Saúde, Alexandre Moraes, da Justiça, Henrique Meirelles, da Fazenda, o pastor Marcos Pereira, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, e Eliseu Padilha, da Casa Civil, todos homens piedosos.
·       A tentativa de jogar a Fiocruz sob o comando de Ricardo Barros e Temer.         

Peça 2 – a economia de um país retardatário

Toda essa conspiração política repousa em um edifício teórico que está sob forte processo de questionamento em países culturalmente mais avançados. No Brasil, os temas se tornaram matéria de fé.
Os ideólogos desse manual – tão velho quanto a Escola de Chicago – são os economistas Marcos Lisboa e Samuel Pessôa, ambos competentes em suas funções.
Lisboa é um brilhante economista que, na gestão Antônio Palocci, foi responsável por vários avanços microeconômicos relevantes. Foi alçado à condição de guru pelo megainvestidor Jorge Paulo Lehman. Ao perceber que as eleições de 2002 marcariam o fim do período tucano, Lehman enganchou Lisboa na campanha de Ciro Gomes, por indicação de Alexandre Scheinkman, o brasileiro que dirigia o prestigioso Departamento de Economia da Universidade de Chicago. Depois, coube a mídia o trabalho de, em pouco tempo, torna-lo conhecido e com fama de gênio – seguindo o roteiro conhecido de criação de gurus, mesmo sem uma produção acadêmica robusta.
Eleito Lula, o primeiro aceno de seu Ministro da Fazenda Antônio Palocci ao mercado foi a nomeação de Lisboa como Secretário Executivo da Fazenda. Quando canalizou seu talento para as questões microeconômicas, conseguiu feitos notáveis, como o de destravar o Sistema Financeiro da Habitação.
Agora, seu papel é o desmontar o Estado nacional e implementar um modelo de mercado, não um plano de estabilização, menos ainda um projeto de desenvolvimento equilibrado, que junte as virtudes de mercado com a de Estado. O objetivo único é ideológico, impor terra arrasada em todos os instrumentos de intervenção do Estado na economia – mesmo aqueles consagrados em todos os países civilizados, e peças centrais na recuperação da economia, como bancos de desenvolvimento, ou de comércio exterior, compras públicas, financiamentos à inovação etc. – ainda que à custa de um aprofundamento maior da crise.
Dilma não soube transformar o Estado em um articulador do mercado. Lisboa simplesmente quer abolir o Estado, como se fosse possível a um país da dimensão do Brasil depender do mercado como agente originário das expectativas, algo que nem os Estados Unidos ousam. E tudo isso jogando com o destino de milhões de trabalhadores, de empresários, jogando fora anos de investimento em novos processos, novas tecnologias.
É chocante como a chamada pós-verdade se infiltra até nos círculos tidos como bem informados, com afirmações sobre o ajuste fiscal na União Europeia, quando o próprio FMI está revendo os problemas dos ajustes recessivos.

Peça 3 – a política econômica de manual

Durante o longo período de neoliberalismo – que se inicia em 1972, com a desvinculação das cotações do ouro e do dólar – criou-se a fantasia de que a economia global se articularia passando ao largo das políticas nacionais. Aboliu-se a história econômica como vetor de análises. E, com o advento dos microcomputadores e das planilhas, entrou-se na era do uso abusivo de estatísticas e fórmulas ilusórias em cima de macro-números que encobrem as realidades nacionais e de blocos, e que só trabalham um conceito de equilíbrio utópico, sem nenhum diagnóstico para os grandes stress econômicos.
Especialmente nas ciências humanas –a medicina, as ciências sociais ou a economia – as teorias são instrumentos para se analisar a realidade local e suas circunstâncias. Não existem regras universais. O exame de laboratório não substitui a análise do paciente pelo médico, assim como a teoria econômica não é um manual de aplicação universal. Para cada circunstância, há um conjunto de medidas específicas.
A crise de 2008 abriu os olhos do primeiro time de economistas dos países centrais. Percebeu-se que a economia é muito mais complexa do que as realidades captadas em modelos matemáticos que compensavam a escassa sofisticação analítica com excesso de estatística.
Vale a pena ler a entrevista de Eric Beinhocker na Carta Capital (https://goo.gl/DirQsb). Para cada circunstância, há que se apelar para os instrumentos de política econômica adequados, sem part-pris ideológico. E recorrer também ao conhecimento empírico, especialmente nos casos de stress agudo da economia que criam situações não identificadas na história econômica recente. De tal modo, que o exercício da política econômica é um misto de técnica e arte, de teoria e intuição.
Nos 8 anos de Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, todas as crises econômicas, quase todas nas contas externas, eram tratadas do mesmo modo, com ajustes fiscais severíssimos, que apenas agravavam a recessão. A política de juros e de câmbio produziu um dos períodos de maior estagnação econômica da história.
Em 2008, Lula decidiu enfrentar a mega-crise que se avizinhava recorrendo a todos os instrumentos possíveis para reanimar a economia. Saiu consagrado. E também deu sorte. Se a crise não catapultasse o dólar para as alturas, provavelmente o país teria quebrado em 2008, tal o rombo nas contas externas promovido por uma política cambial imprudente que, além disso, prorrogaria estagnação do período FHC.
A crise do governo Dilma foi decorrência da incapacidade de montar cenários e estratégias alternativas para o fim do ciclo das commodities. Deveu-se também à elevação imprevista de juros em 2013, à sucessão infindável de subsídios que fragilizaram a parte fiscal e, depois, um ajuste fiscal severíssimo, pró-cíclico, que aprofundou a crise: medidas tomadas nos momentos errados.
Em fins de 2015, quando aparentemente conseguira chegar a um diagnóstico mais razoável, com uma estratégia racional de saída da crise, e os analistas previam a recuperação a partir do segundo semestre, foi fuzilada pela ação conjunta da Lava Jato e do Procurador Geral da República, associados ao boicote do PSDB e de Eduardo Cunha na Câmara e no Senado.
As lições que ficam é que as medidas econômicas não são virtuosas em si: dependem das circunstâncias em que são implementadas. Há um conjunto de princípios de responsabilidade fiscal a serem seguidos por qualquer governo. Mas, em períodos de recessão, a política fiscal precisa ser anticíclica – através do aumento dos gastos públicos -, caso contrário a cada corte de despesas se seguirá uma queda maior da receita. Em tempos de economia aquecida, pratica-se política fiscal mais severa. Nenhum economista com um mínimo de bom senso deixaria de considerar essas questões. 
Esse quadro era nítido no início de 2015, quando Joaquim Levy deu inicio a seu plano suicida. Uma dose de conhecimento empírico seria suficiente para mostrar que os cortes fiscais aprofundariam ainda mais a recessão, ampliando o déficit fiscal via queda de receita.
Levy preferiu acreditar em estudos dos anos 90, que supostamente atestariam que cortes de despesas têm pouco impacto no PIB. Nem se deu conta que, em 2012, o próprio FMI tinha revisto essas conclusões.
Para os cabeças de planilha, conhecimento empírico não é ciência e as experiências históricas não tem validade. Valem apenas as estatísticas baseadas em séries históricas contemporâneas.
A cada situação nova, criam desastres monumentais pela incapacidade de só recorrer a manuais montados em cima de situações passadas. Os desastres só serão inteiramente compreendidos quando estudados a posteriori. E, como aqui é o país do Macunaíma, nem mesmo grandes erros recentes – como o pacote Levy – servem de lição para o pacote Lisboa.

Peça 4 – próximas etapas

A fantasia do pote de ouro no fim do arco-íris acabou. A história de que bastaria tirar Dilma para a economia se recuperar já está sendo percebida como blefe pelo cidadão comum.
Tem-se um presidente tão desmoralizado que, a maneira que a revista Veja encontrou para retribuir o megapacote publicitário, foi uma capa-fantasia com a senhora Temer, tal a falta de atratividade em qualquer outro aspecto do primeiro marido.
A economia não irá se recuperar com esse viés ideológico predominando na política econômica. Pelo contrário, há no horizonte próximo o pior dos mundos: o default dos Estados.
Em março o STF (Supremo Tribunal Federal) deverá liberar os inquéritos contra políticos. A quantidade de jogadas planejadas pela camarilha de Temer e pelo Congresso aumentará ainda mais a fragilidade do governo.
A oposição vê nas eleições diretas a saída para a crise. Ocorre que Sérgio Moro, os procuradores da Lava Jato e o TRF4 têm lado político. Ao menor sinal de renascimento de Lula, tratarão de impugnar sua candidatura através da condenação relâmpago em 1a e 2a instância.
Por outro lado, o presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) Gilmar Mendes, deixa transparecer seu cansaço com o Supremo e a possibilidade de aceitar algum cargo executivo futuramente.
No momento, a aposta com maior probabilidade é a degola de Michel Temer seguido de eleições indiretas sob controle do mercado-PSDB, com o PGR cumprindo o papel de agente intimidador de políticos recalcitrantes.
Há muita confusão e poucos personagens, para permitir a montagem de cenários mais precisos.